Opinião
A heran�a de Allende
| Eduardo Bomfim * O documentário de Patrício Guzmán, cineasta chileno, sobre o governo da Unidade Popular e do presidente socialista Salvador Allende, representa algo de valor histórico. Quatro DVDs onde todos os atores, sem exceção, são a própria sociedade chilena. A população anônima, os líderes e partidos, os militares, soldados e oficialidade, operários, camponeses e classe média. O ritmo da película não é conduzido pelo roteiro do cineasta, mas determinado pelos acontecimentos que se sucedem. A Batalha do Chile recebeu vários prêmios internacionais na Europa, Estados Unidos etc. O filme nos conduz, com impacto, ao passado recente da luta política com um desfecho heróico e trágico pela resistência e morte do presidente Allende no palácio presidencial. Era a época da guerra fria. As reuniões dos comitês populares, as alegres manifestações de milhares de pessoas, quase que diariamente. A primeira tentativa frustrada de golpe de Estado. As grandes assembléias da CUT, Central Única dos Trabalhadores do Chile. A articulação das forças reacionárias, inclusive do movimento de massas de direita, influente, inspirado nas associações nazistas, com suas tarjas assemelhadas às suásticas nos braços. As mobilizações populares, a tomada de consciência dos pobres da periferia. A traição ao Chile por setores empresariais conspirando o golpe através da CIA. Depoimento do embaixador norte-americano à época, narrando os contatos com militares, empresários e os dólares, enviados através da Holanda, EUA, Bélgica etc. O desabastecimento orquestrado, a resposta do povo através de mercearias populares. A ordem de Nixon, esmurrando a mesa, para que derrubassem a qualquer custo o presidente eleito. O sinistro Pinochet. Tudo documentado. Os desencontros da esquerda. Os partidos socialista e comunista, na desvantagem da correlação de forças, resistindo contra a ameaça fascista. Esquerdistas infantis empurrando o governo para o isolamento fatal. O desenlace brutal, assassino, covarde. Dá-nos a impressão de ouvirmos, pela cadência crescente dos fatos, um trágico Bolero de Ravel. Ademais, fica a herança de Allende. A amplitude política é algo fundamental a um projeto original, conseqüente, de soberania nacional e avanço dos direitos do povo oprimido. Mesmo sem a guerra fria. (*) É advogado e secretário estadual de Cultura.