Opinião
Samba atravessado - Editorial
Infelizmente, não são novidades tumultos e agressões físicas entre julgadores, dirigentes e torcedores de agremiações carnavalescas. Desagradou o resultado? ?A mão que toca o tamborim é a mesma que acerta o pé-de-ouvido do próximo? ? poderia filosofar a pretensa sabedoria popular. Mas, a bem da verdade, não é assim. Os verdadeiros sambistas estariam longe desse furdunço, causado pela exacerbação dos interesses próprios das cúpulas das agremiações carnavalescas ? interesses pouco ou nada afeitos aos objetivos de uma entidade cultural digna desse nome. Longe, muito longe, parece estar o tempo no qual os protestos contra um julgamento qualquer estavam circunscritos aos valores culturais, e as disputas giravam em torno das paixões verdadeiras pela bandeira da escola (de samba), pelo estandarte do bloco (de frevo) ou por outros quaisquer ícones dos grupos carnavalescos. ?Madeira que cupim não rói?,marcha de bloco de Capiba, composta em 1963, relembra uma época ? hoje longínqua ? no qual o ressentimento, ao invés de tapas e cadeiradas, era expresso em arte, cantada no refrão ?queiram ou não queiram os juízes/o nosso bloco é de fato campeão?. Como no ancestral entrudo (festa portuguesa que teria evoluído para o carnaval brasileiro) dos séculos passados, a festa de momo parece querer retomar sua virulência indesejável. Por que tal retrocesso? No caso da balbúrdia na divulgação do resultado das escolas de samba de Maceió, tudo indica que as paixões explodiram mais pelo enredo político-eleitoral que pelo amor ao samba. Num momento no qual a sociedade brasileira (e alagoana em particular) se preocupa e combate a comercialização do voto, todas as manifestações de desvios e manipulações de caráter partidário devem ser identificadas e combatidas sem tréguas, para o bem (geral) da democracia e para o bem (específico) do carnaval.