Opinião
Nelson Brasileiro
| Eduardo Bomfim * Conheci Nelson Pereira dos Santos em suas inúmeras viagens a Maceió e passagens por Palmeira dos Índios, por meio do jornalista Enio Lins. Figura afável, sem afetação, ouvinte atento, prosador, avesso ao estrelismo. Certa ocasião, em um dos nossos encontros, anos atrás, fomos a um restaurante badalado. Pediu-nos um lugar reservado para que ?pudéssemos conversar em paz?. Assim fui tomando conhecimento da sua visão sobre cultura, das coisas do mundo. A sua produção como cineasta é pública e notória. Revela, desde o início, uma intensa preocupação em compreender o Brasil real. Sem retoques ou maquiagens que o introduzisse nos circuitos dos atuais festivais internacionais. Essa postura não o impediu de ganhar inúmeros prêmios mundo afora. Mas a diferença reside no seu compromisso em captar as nossas brasilidades e regionalidades. Sem sectarismo, tem um profundo sentimento de engajamento em decifrar a realidade social e política do País. Procurou inspiração nos grandes escritores vocacionados para o mesmo objetivo. Assim foi que filmou Graciliano Ramos, documentou Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Guimarães Rosa etc. Talvez, seja essa a razão porque tão atacado, atualmente de forma mais intensa, pelos cineastas que aderiram à fórmula fácil de trilhar o caminho do sucesso, inventando ?realidades? palatáveis, exóticas, distorcidas sobre a realidade brasileira, ?globalizados?, sem identidades. O outro motivo é que Nelson Pereira evoluiu para melhor. Mas não adaptou as suas convicções políticas às conveniências destes tempos neoliberais. Permaneceu fiel ao seu itinerário, à sua trilha ideológica. Recebe as críticas e até agressões, com a naturalidade de um homem convicto do que produz, em que acredita. Em público, o seu traço de personalidade, é a paciência em gestos e atitudes. Nelson havia se comprometido em participar de um projeto, em março aqui em Maceió, sobre as raízes do Brasil, do Nordeste, tendo como base a sua filmografia. Ligou-nos, desculpando-se. Ficaria para junho. Pediram-no para antecipar o lançamento do seu filme sobre Brasília, em Sundance nos EUA. ?Infelizmente, disse, havia outro problema?. Fora eleito para a Academia Brasileira de Letras. Mas não via a hora de retornar a Maceió e Palmeira dos Índios. As ?suas duas Passárgadas?. Despediu-se alegre, com um até breve. (*) É advogado e secretário estadual de Cultura.