Opinião
A guerra dos consult�rio
| Eduardo Dantas * É fato indiscutível que o volume de processos movidos contra médicos e profissionais da saúde cresceu exponencialmente nos últimos anos. Praticamente todas as semanas, jornais, rádios ou redes de televisão noticiam um novo caso, seja de condenação, seja de absolvição, de profissionais que foram levados à Justiça por seus ex-pacientes. A questão que se coloca é: efetivamente, houve um aumento no número de erros médicos? Entendemos que não. Aconteceu, sim, um extremo desgaste na relação médico x paciente, e esse desgaste tem se refletido nos tribunais e nos conselhos de ética profissional. A medicina evoluiu muito nas últimas décadas. Novos equipamentos surgem a cada dia, levando à segmentação da atividade e à especialização cada vez mais necessária dos operadores da saúde. Paradoxalmente, cresce a intolerância do paciente contra eventuais falhas ou resultados insatisfatórios de seu tratamento. O médico generalista, o clínico geral, tinha o ?direito? de ter dúvidas. O especialista, munido de caros e sofisticados exames, não. Ao mesmo tempo, o exercício da medicina tornou-se uma atividade de massa, sendo priorizado o volume de atendimentos em detrimento da qualidade da atenção ao paciente, nas redes pública e privada de saúde. Não raro, o paciente desconhece até mesmo o nome de seu médico, que é o que está de plantão no hospital público, ou com agenda mais disponível no guia de credenciados de seu plano de saúde. Esses profissionais, por sua vez, pressionados por baixos salários, tendem a ter mais de uma fonte de trabalho e se submetem ao atendimento de mais pacientes por dia do que o recomendado, passando com eles cada vez menos tempo. Processos têm sido gerados a partir de um simples mal-entendido. A falta de uma conversa mais aprofundada, uma explicação sobre causas de determinada doença e conseqüências de seu tratamento são responsáveis por problemas que seriam facilmente evitáveis. Chegamos assim ao exagero de o paciente ver seu problema curado, mas interpretar um efeito colateral adverso como um erro no tratamento, uma falha profissional. Some-se a isso uma parcela de pessoas que alimentam a chamada ?indústria do dano moral?, transformando a medicina numa das atividades profissionais de maior risco nos dias atuais. Por fim, há ainda os maus profissionais, pequena parcela que atua sem se preocupar com o paciente, encarando-o como um estorvo a ser removido no menor tempo possível. (*) É especialista em Direito Médico.