app-icon

Baixe o nosso app Gazeta de Alagoas de graça!

Baixar
Nº 5729
Opinião

Ainda sobre o inferno

| Anilda Leão * Continuo a falar sobre o tema de meu último artigo, pois é preciso que as pessoas que não testemunharam o período crítico vivido em Alagoas, no fim dos anos 40 do século passado, os jovens, principalmente, tomem conhecimento daqueles fato

Por | Edição do dia 19/03/2006 - Matéria atualizada em 19/03/2006 às 00h00

| Anilda Leão * Continuo a falar sobre o tema de meu último artigo, pois é preciso que as pessoas que não testemunharam o período crítico vivido em Alagoas, no fim dos anos 40 do século passado, os jovens, principalmente, tomem conhecimento daqueles fatos que hoje já pertencem à história de nossa terra. O clima de medo e insegurança instalado após a posse do governador Silvestre Péricles de Goes Monteiro, personalidade ainda hoje controversa, iria se estender a todos os rincões de nossa terra. Incomodado pela oposição que lhe fazia a Assembléia Legislativa (que para ele era infestada do que costumava chamar de um bando de udeno-comunistas) e alguns órgãos da imprensa, o então ocupante do Palácio dos Martírios desabafava, no seu estilo doentio e paranóico: “O alagoano é torpe. A estultícia do alagoano me estarrece”. Se alguns de seus adversários sofreram as piores represálias, meu pai, o deputado estadual Joaquim Leão era vítima constante de tentativas de desmoralização, por meio da imprensa governista. Conta-se que o governador encarregava-se pessoalmente da revisão dos artigos publicados, artigos esses que tinham a finalidade de ridicularizar os seus maiores inimigos políticos. E estampava, na primeira página, em letras garrafais, títulos como “Quincas Ratão” e por aí vai... Certa noite, enquanto meu pai participava de uma reunião cívica da oposição no Teatro Deodoro, fomos surpreendidas, em nossa casa, situada na então Rua da Floresta, hoje Fernandes de Barros, por uma saraivada de paralelepípedos que arrebentou a porta e a janela da frente, vindo a atingir o braço de uma das minhas irmãs que estudava no corredor. Minha mãe, que se encontrava acamada, teve seu estado de saúde agravado. E só não aconteceu algo pior porque fomos socorridas por um vizinho, sr. Novais de Castro, que nos fez transpor o muro que separava as nossas casas, enquanto alguém ia ao Deodoro avisar meu pai do ocorrido. Por toda a noite os vizinhos ficaram ao nosso lado, em vigília, pois temíamos um novo ataque. Esses são apenas alguns exemplos do que foi o governo de Silvestre Péricles. Uma verdadeira odisséia quando Alagoas se transformou num verdadeiro inferno, onde a oposição era alvo de ameaças e tiroteios, como o ocorrido em Coruripe, onde alguns bravos oposicionistas, inclusive meu pai, escaparam de morrer por verdadeiro milagre. E que só foi superado em princípios dos anos 50 do século passado, depois de uma verdadeira mobilização cívica, quando a oposição conseguiu eleger Arnon de Mello para governador, inaugurando uma nova era em nosso Estado. (*) É escritora, poeta, atriz e cantora.

Mais matérias
desta edição