Opinião
Olhai as aves do c�u...
| Dom Fernando Iório * Elas não fiam, nem tecem, entretanto Deus as veste, delas não se esquecendo, lembra-nos Jesus. Da janela de minha casa, estou a contemplar, no espaço imenso, as aves volitando, bem leves, soltas, selvagens e eu preso a essa janela e aos caminhos que vou trilhar no longo roteiro de hoje. Não poucas vezes, invejo os passarinhos e fico a pensar nas coisas que lá, do alto, vêem, e eu não. Agora mesmo, desloca-se meu olhar para algumas pessoas que conversam, olhando para o céu, onde colorida pipa se vai erguendo ao jogo do vento. Fico a pensar: que fascínio é esse de olhar o firmamento? Tudo parece estranho, vez que o firmamento nada mais é do que um imenso vazio. Por isso mesmo, não deixa de ser o vôo aquele arriscado mergulho no vazio dos céus. Vazio é misteriosa palavra que mostra a nossa solidão e o estar só. Penso, de logo, nas mãos que se juntam em concha para acolher em seu vazio a água que corre de uma bica; os braços que se alargam para o amplexo para acolher em seu vazio a pessoa amada que não chegou ainda. Os vazios acolhedores são sempre amigos: o silêncio que não exige palavra alguma, alegrando-se com a presença muda; a casa onde há sempre um lugar vazio para acolher; o lugar vazio que se deixa à mesa para o hóspede que chega. Infelizmente, por trás de meus passos está o olhar que persegue e que acusa, difamando, encontram-se aqueles que interditam porque orientados para desfazer o sorriso de quem é feliz. O vazio, ao contrário, é a permissão, é o espaço que o outro abre para que se possa viver, como o vazio do espaço aberto aos passarinhos. O que de importante encontro no Cristo Jesus é o espaço vazio que Ele abre para que ali cresçam nossas fantasias e sonhos. Como seria fantástico se astodas pessoas tivessem lugares vazios, como o firmamento e não fossem tão cheias de ordens, de falsas certezas, de condenações, de punhos cerrados para assinar sanções contra pessoas inocentes. É sábio quem não confirma condenações já preparadas pelo ódio de quem não sabe olhar para o alto e contemplar a liberdade dos passarinhos: ?Olhai as aves do céu, elas não fiam, nem tecem, mesmo assim Deus as ama?. Vou continuar contemplando o firmamento a ver se existe algum vazio para mim que desejo voar; quanto ao iníquo ficará preso à terra que, aos poucos, o vai devorando, no dizer do Salmo 33. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.