Opinião
Medo de amar
| Gilberto de Macedo * Forma de comportamento individual que vem acontecendo na sociedade moderna, cada vez mais generalizadamente. É a conduta da maioria das pessoas e seus relacionamentos afetivos. Efeito que atinge a intimidade pessoal na profundeza dos sentimentos. Chega a negar os ideais de humanidade. É que a sociedade-máquina de hoje não se limita às superfícies e aparências individuais. Invade o espaço íntimo pessoal, de que dão conta as ciências neuro-cerebrais. Assim, mais representativamente dá-se com o sentimento de amor. É medo de amar que ocorre com grande freqüência, notadamente, mas não com exclusividade, no âmbito das novas gerações. Medo causado por outro da mesma natureza, e que acontece em oposição: medo de não ser amado. O medo da frustração amorosa, de amar alguém e não ser correspondido, gera esse mecanismo de defesa: não amar! Negar a naus oura e rica experiência de vida, as pessoas reduzindo-se a autômatos materiais. Dá a nova linguagem vulgar: ?ficar? em lugar de amar. ?Ficar? que nesse novo vocabulário, tem um significado de energia física em uso. Uma forma do maquinismo a que estão reduzidos os atos de amor. O que serão dessas pessoas, então, amanhã? Um agrupamento de robôs de todas a idades e sexos. O sentimento mais nobre que é amar desfigurado por relações de convivência negocista, o corpo humano visto como objeto. Daí sua falta de durabilidade: um negócio substituindo outro, a cada dia. Desdém sentimental, do mais rico sentimento humano. É a vez de perguntar o que será o futuro da vida familiar, e da sociedade que dela se constitui? A família, sabe-se, é a base da sociedade. Se ela se desintegra em que se apoiará a sociedade? será o caos, certamente. Lógico que se há de empreender urgentes medidas públicas e particulares envolvendo todo o problema. Logo na vida familiar, no sentido de sua conservação, que dá origem às formas de comportamentos, os valores afetivos antes de tudo. É como dizia Plínio, O Jovem: ?Lar é onde habita o coração?. Sem a percepção e a prática do amor, a família reduz-se a um aglomeramento de pessoas alheias, apenas sócios do negócio familiar. E na vida pública, o sistema de educação voltado para a formação humanística, com a atenção para a afetividade e a conscientização atenta aos valores intelectuais e sociais. Com esse equilíbrio psico-afetivo-intelectual e ético dá-se a estrutura da personalidade originada no ambiente familiar, esvaindo-se o medo de amar. (*) É médico.