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Nº 5730
Opinião

Santos Dumont e o seu tempo

| Benedito Ramos * Não há a menor dúvida de que o homem iria voar, mais cedo ou mais tarde. A grande diferença que faz a presença de Santos Dumont nessa lista enorme de inventores é a sua obstinação. Seu pai, o engenheiro Henrique Dumont além de muito ri

Por | Edição do dia 23/03/2006 - Matéria atualizada em 23/03/2006 às 00h00

| Benedito Ramos * Não há a menor dúvida de que o homem iria voar, mais cedo ou mais tarde. A grande diferença que faz a presença de Santos Dumont nessa lista enorme de inventores é a sua obstinação. Seu pai, o engenheiro Henrique Dumont além de muito rico era um empreendedor nato. Um construtor de estradas de ferro cuja crença nos ideais do filho foi fundamental para mandá-lo para Paris. “Não quero que seja um doutor”. – Disse categoricamente. Queria que estudasse, mas que perseguisse o seu objetivo. Por isso deu-lhe dinheiro e liberdade para escolher a sua carreira. Paris, essa cidade encanto, de luzes ofuscantes com sua efervescência de vida e criatividade. Como não se deixar levar pela música de Offenbach no Moulin Rouge ou pela prosa deletéria de Proust? Como não se encantar com a arte dos impressionistas ou com os cartazes de Mucha? E o teatro? E a ópera? A graça de uma Sarah Bernhardt em Medéia ou em A dama das Camélias. Ah! Paris! Lugar para se passear de automóvel pelo Champs-Elysées. Ou se perder nas ameias do Louvre deslumbrado com a Vitória de Samotrácia. Quem sabe indo a Montmartre de bondinho? Mas Alberto Santos Dumont preferiu a Exposição Universal de 1900 com o magnífico Salão da Eletricidade com suas fontes borbulhantes e sua arquitetura afetada ao gosto burguês de uma cidade que se renovava. Andou incansavelmente pelos Salões da Mecânica que a Revolução Industrial esfregava nas ventas do colonialismo. Desfilou anonimamente entre os encartolados ouvindo seus devaneios. Viu, pela primeira vez o Salão do Automóvel, da Renault e experimentou o prazer de andar de bicicleta. Com certeza, não foram as luzes, a música, o absinto ou o ópio parisiense que o contagiaram, foi a força cosmopolita de uma cidade que destronava a Inglaterra Vitoriana, como a Oficina do Mundo. Foi a própria corrida do progresso em busca do uso do petróleo e do aço. Foi a competitividade e ebulição mágica do seu gênio inventivo procurando soluções práticas. Santos Dumont foi mais que um mero observador do célere momento em que vivia, mas um visionário de um futuro que corria a sua frente a mil por hora. E o que buscava? Prestígio? Glória? Dinheiro? Não, com a sua modéstia. Não, com a sua humildade. Não, com o seu desapego. Santos Dumont não chegou a patentear nenhum de seus inventos, simplesmente, porque os dedicou à humanidade. Nada para si mesmo e até o prêmio recebido de 100 mil francos o distribuiu generosamente. Foi por esse espírito nobre que ele morreu, acometido de tristeza, ao ver o mau uso de seu invento durante a Primeira Guerra. (*) É curador da mostra.

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