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Opinião

Pensamento j� pensado

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| Eduardo Bomfim * Como acentuou o escritor italiano Alberto Moravia, a ação nefasta do fascismo se estende por mais de duas ou três gerações após a sua liquidação em determinado período. Pode-se discutir a duração desses malefícios. Jamais as suas conseqüências danosas, os seus efeitos colaterais. Creio que é assunto de semântica caracterizar como fascista ou não a época do regime militar, após a edição do tenebroso AI-5, em que foram suprimidas todas as liberdades democráticas, o direito de associação, organização dos trabalhadores e da sociedade civil como um todo. Generalizada a prática da tortura, censura implacável à imprensa, perseguição contra o direito inalienável de opinião, assassinatos, exílios etc. A verdade é que as conseqüências do que se passou no Brasil não fogem à assertiva do grande italiano. Assim é que me chega às mãos um raro exemplar do livro de Darcy Ribeiro: Sobre o óbvio. Uma coletânea de ensaios, principalmente dos anos de arbítrio. Não o conhecia, nunca tinha ouvido falar da sua existência. Uma dessas análises, trata da agressão que sofreu nessa época o mundo acadêmico, com o título Três pragas. A primeira delas, refere-se à ascensão dos medíocres que substituíram as cabeças criativas, produtoras de conhecimento, fundamentais ao desenvolvimento das ciências, das artes, no País. Em seguida, refere-se à invasão dos conhecidos brazilianistas, principalmente norte-americanos, que por aqui chegaram como uma praga de gafanhotos, para estudar com detalhes óbvios, montanhas de estatísticas, o Brasil e o próprio regime militar. Assuntos proibidos aos brasileiros. Alguns até que produziram matérias de alguma serventia, declara Darcy. Finalmente, dedica um capítulo especial aos jovens, alguns nem tanto, que encontraram uma saída para o sufoco que era produzir idéias na área acadêmica sem o risco da prisão, tortura, exílio ou demissão. Os cursos no exterior, nas áreas das ciências sociais. Vários terminaram produzindo o pensamento já pensado. Transformaram-se em ventríloquos de antropólogos, filósofos, sociólogos, cientistas políticos, da Europa e dos EUA. Acreditando, sem crítica, no transplante dessas ?verdades? ao País. Alguns permaneceram, perseguidos, sabendo da importância do conhecimento universal, mas atentos ao Brasil, em busca de um projeto nacional e social avançado. (*) É advogado e secretário estadual de Cultura.

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