Opinião
A favela, a crian�a e o destino do Brasil
| Fátima Albuquerque * É tarde e o sol está a pique. Volto à comunidade Sururu de Capote. O amontoado de barracos me lembra que estou chegando ao lugar onde geralmente encontro as duas líderes. Faz um ano que estudo a questão da violação do direito humano à alimentação nessa comunidade. Percebo um movimento diferente, não pela correria das crianças, mas pelo ar apreensivo nos rostos das mulheres que catam o sururu empilhado no chão. ?Tia! Morreu mais um!? avisa uma menina. ?É, morreu mais um?, diz a líder. ?Ainda hoje pela manhã, ajudou a embarcar as crianças no ônibus da escola. Quando voltei, soube que foi assassinado. Ele era errado, é verdade, mas ninguém endurece o coração, se tem oportunidade de se sentir amado um dia, se vira gente... assim, com direito a ter direito. Sabe como é? Aqui tá tudo trocado: as crianças vivem como adultos no meio das brigas e das mortes, como essa, e os adultos agem como crianças, porque nunca puderam crescer. Igualzinho ao fantástico! A favela está com medo e com fome de tudo: de comida, de trabalho, de segurança, de dignidade. Ninguém está aqui porque quer. Cadê nossas políticas?? De fato, existe uma estreita relação entre direito e política. Porém a luta pela superação das violações dos direitos humanos no Brasil, e aqui leia-se: direito à educação e acesso à informação, saúde, trabalho, moradia, alimentação adequada dentre outros ainda tem um longo caminho a percorrer. Apesar do compromisso do governo, de implementar progressivamente esses direitos, sabe-se que, sendo interrelacionados e indivisíveis por princípio, seria preciso uma ação coordenada e contundente em todos os níveis de políticas públicas, para que fosse possível a geração de um impacto de efeito positivo e generalizado. Entretanto, o capitalismo interfere e obstrui a efetivação dessa ação, inviabilizando os resultados planejados, porque a esse modo de produção não interessa a superação das desigualdades sociais, pelo menos não na medida necessária e urgente. Sendo assim, aqui temos outro problema: é impossível esperar mais. O País precisa ter crianças aprendendo a ser crianças e a construir uma sociedade mais justa onde a violência não as engulam precocemente. Se para Foucault o corpo é uma realidade biopolítica, a fome, as doenças causadas pela pobreza, a violência urbana, o descompasso das políticas públicas e a falta da efetivação do compromisso político são expressões claras do nosso modelo de desenvolvimento e da limitação de recursos alocados à rede de proteção social. Precisamos intervir nesse quadro. Assim, o nosso solo está longe de ser uma mãe gentil. (*) É professora da Ufal.