Opinião
Conversando com Deus
| Anilda Leão * Vez por outra me surpreendo a conversar com Deus e até discutindo e discordando, muitas vezes ? por algo que não sou capaz de entender, com certeza. É assim como um bate-papo, em que, aos poucos, vou tentando descobrir a voz da verdade. Certa feita, cheguei a perguntar por que Ele tão poderoso, tão onipotente deixa a humanidade tão descontrolada, esvaindo-se em guerras, em disputas mesquinhas, com tanta gente má a matar seus semelhantes, ou a roubar milhões e milhões enquanto fingem fazer algo por aqueles que vivem esfomeados e carentes de tudo, como acontece no Nordeste e pelo Brasil. Ele, na sua grande sabedoria e paciência, fez-me ver que nós é que somos os grandes culpados, desde que fomos criados e dotados daquilo que é chamado de livre-arbítrio. Foi então que eu, na minha santa ignorância, retruquei: o Senhor me perdoe, mas foi aí que se deu a grande falha. Como deixar que homens e mulheres, seres tão imperfeitos, possam ser donos de livre-arbítrio? O resultado é o que estamos vendo o mundo se desmoronando, a humanidade se corrompendo cada vez mais. Então ele me interrompeu, com ar de zanga: ?É aí que você e muitos outros se enganam. Como não deixar que usem seu livre-arbítrio, se foi para isso que criei a humanidade, para o seu aperfeiçoamento constante??. É, respondi assim meio desconfiada, o Mestre tem toda razão. É preciso que conheçamos mais os Evangelhos que Jesus nos deixou, e também os demais mandamentos, como o ?amai-vos uns aos outros?, o ?não matarás?. E todos os outros que estão nas escrituras. Está certo, Senhor, mas será que com toda a Sua bondade, com todo o Seu amor, não seria possível que nos fosse dado, hoje mesmo, o Seu perdão, levando-nos a todos nós para o Paraíso, aquele mesmo onde viveram Adão e Eva, onde poderíamos desde já usufruir dos frutos e da beleza dos campos da eternidade, sem que por isso tivéssemos que ser expulsos por ousar mordiscar as maravilhosas maçãs do Éden? E, com o perdão da palavra, não teria sido um ato antidemocrático e nada fraterno de Sua parte a expulsão dos dois primeiros humanos de um lugar tão agradável, apenas com uma folha de parreira a lhes cobrir os corpos, obrigando-os a trabalhar para o próprio sustento? Nesse ponto, Deus já impaciente diante de tanta ousadia e ignorância, redargüiu com um ar bem carrancudo: ?Essa não. Está aí uma coisa que eu não agüento mais. Vocês erram, desnorteiam-se por não saber usar bem o livre-arbítrio que lhes foi concedido, e depois ainda põem a culpa em mim?. (*) É escritora, poeta e atriz.