Opinião
Os siameses
| Marcos Davi Melo * Tristan Bernard escreveu um curioso conto sobre dois gêmeos siameses que desenvolveram ao longo da vida personalidades opostas. Vanderlei logo se caracterizou pelos bons costumes: era estudioso, bom filho, vestia-se com esmero, gostava de literatura, de música e se dirigia às damas de forma polida e elegante, que por tudo isso o adoravam. O outro, Júlio, desenvolveu uma personalidade degenerada: era chegado ao vício da embriaguez, vestia-se desmazeladamente, era agressivo e utilizava termos chulos perante as mulheres, com quem tinha uma convivência das mais conflituosas. Eis que, certo dia, Vanderlei apaixonou-se por formosa senhorita e por ela foi correspondido. Logo se tornaram noivos e em pouco tempo se casaram sob as bênçãos dos pais e complacência de Júlio, o siamês degenerado. Durante a lua-de-mel, Júlio comportou-se estranhamente bem e até colaborou como pode, inclusive adormecendo mais cedo e profundamente, para deixar os nubentes mais à vontade. Todavia, aconteceu com o casal o que acontece com qualquer casal quando um solteiro adentra as intimidades do ambiente familiar: com o tempo, Vanderlei foi desconfiando do comportamento de sua mulher, até que a flagrou em colóquio amoroso com seu irmão Júlio. Imediatamente a expulsou de casa. Acontece que o irmão degenerado resolveu ir embora com ela e Vanderlei, o irmão virtuoso, não teve outra solução senão acompanhá-los e, como tudo acaba bem entre xifópagos, viveram felizes para sempre. No lançamento da candidatura do senador Teotonio Vilela para o governo do Estado, o senador Renan Calheiros estava presente e os dois irmãos siameses de Alagoas estavam juntos. Sabe-se de antemão que não haverá traições entre os dois, já que ambos são de boa índole e a questão principal não é essa. Mas sim a situação socioeconômica deplorável de nosso Estado e como poderemos sair dela, o que é um desafio também para os outros candidatos. E quem dá a receita é outro tucano, o Alckmin: reduzir o tamanho desmesurado do Estado e seus gastos descontrolados; incentivar a iniciativa privada e dar-lhe condições de criar empregos, que não vão onerar os cofres públicos, o que em Alagoas, inclusive na área de saúde, foi esquecido. Precisamos da gestão da coisa pública como se fosse gestão da coisa privada, em que existem prioridades, planejamento e controle de gastos. Precisamos de mais gerência consciente e menos política paternalista. Esse modelo se esgotou. (*) É médico.