Opinião
O papa e o mendigo
| Dom José Carlos Melo, CM * Hoje, celebramos o primeiro aniversário de falecimento do papa João Paulo II. Revivendo neste tempo de quaresma o mistério da Misericórdia de Deus em nossa vida, lembrei de um fato verídico que aconteceu na vida do nosso saudoso pontífice, escrito com detalhes por um padre amigo, mons. Hélio Maranhão. Na década de 90 do século passado, um sacerdote americano foi a Roma para estudar e, visitando uma das Basílicas Romanas, encontrou, entre os mendigos de rua, um de seus colegas de ordenação presbiteral. O padre o reconheceu e ele, humildemente, contou toda sua história de quedas, fracassos e, conseqüentemente, o que o levou a esse estado degradante de vida. Por Providência Divina esse sacerdote americano tinha naqueles dias uma audiência marcada com o papa João Paulo II. Durante o encontro o padre partilhou com o santo padre sua angustia com esse colega sacerdote. Comovido com o fato, o papa pediu que providenciasse batina e sapatos e o conduzisse ao Vaticano para uma audiência particular, concedendo-lhe o privilégio de um fraterno almoço. No dia da visita, na hora marcada, lá estavam os dois, o colega padre e o padre mendigo para a esperada audiência. Assim, chegaram à sala pontifícia. Para grande surpresa do padre mendigo, João Paulo II se levantou de sua poltrona e foi ao encontro do padre mendigo para abraçá-lo, tiveram um diálogo informal durante o almoço e no término, pediu para lhe falar a sós, lembrando-lhe o Salmo 109: ?O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec?. Terminado esse colóquio de pai para com seu filho, o papa disse-lhe secretamente: ?Agora eu quero me confessar com você?. E ele categoricamente reagiu dizendo: ?Não posso confessar ninguém, porque meu bispo me tirou os poderes sacerdotais?. Mas o papa João Paulo II, tranqüilamente risonho, disse-lhe solenemente: ?Eu sou o papa, o bispo de Roma que lhe devolvo todos os seus poderes. Posso fazê-lo. Quero fazê-lo e já estou fazendo agora?. Em seguida, o papa João Paulo II se ajoelhou para a confissão com ao padre mendigo e este chorando de alegria pediu também ao papa a confissão para o arrependimento de todas as suas faltas. Nesse episódio entendemos a manifestação da Misericórdia Divina. Deus Pai em seu Filho Jesus, na efusão do Espírito Santo se manifestou na humildade do papa, ?Servo dos servos de Deus? e na confiança absoluta do padre que fora mendigo e que agora retornava ao seu ministério?. (*) É arcebispo metropolitano de Maceió.