Opinião
O v�u...
| Gilberto de Macedo * Véu é palavra de múltiplas conotações. No sentido tradicional, designa o objeto de tecido fino, usado para adornar o chapéu feminino, e encobrir o rosto de quem faz uso do mesmo. Na linguagem comum, emprega-se o termo simbolicamente para designar tudo aquilo que interposto serve para esconder e disfarçar algo, seja um objeto material, seja impalpável, logo uma idéia, um comportamento, um sentimento, um desejo, um acontecimento social e político, até mesmo uma pessoa. E nessa perspectiva figurativa, é sinônimo de cortina, disfarce, máscara, pretexto, engano, vedação, mentira etc. Opõe-se, então, à clareza, à autenticidade, à identidade, à revelação e à evidência. É como se ouve dizer, vulgarmente: ?Colocaram um véu de fumaça para que ninguém visse a verdade?. Para esconder as intenções, para dissimular. Por inúmeros motivos e interesses particulares escusos, faz-se uso desse vocábulo, do véu simbólico para não se expor a uma situação indesejável. Assim, há vários tipos de véu, conforme a sua natureza. Véu físico, como já foi dito acima, feito de substância especial. Véu humano, em diversas manifestações. Aí logo o véu da linguagem quando se emprega uma palavra estranha à realidade em questão, só para confundir. Véu da afetividade, da atitude desleal e insincera: véu da traição! Revela a malformação do temperamento, e momentos indignos em face da frustrações que tenta compensar, como lembrava o poeta Charles Bandelaire, ao dizer: ?O homem não escapa à fatalidade de seu temperamento físico e moral?. Véu intelectual de, propositadamente, obscurecer a exposição de um conceito para confundir determinado conhecimento, dando oportunidade à afirmativa de Jacobi, de que ?O caráter do homem não está na inteligência, mas no coração?. E, mais significativo o véu ético quando, conscientemente, enuncia-se uma mentira na convivência privada e pública. Razão inteira tem, assim, o filósofo Montaigne, afirmando: ?Ao dizer uma falsidade, consiste uma injúria maior contra si, do que à pessoa a quem se mente?. Tanto mais que tal inverdade contém o sentido claro de fugir à evidência. Daí, então, que Byron tenha dito, convincentemente: ?A mentira é a verdade atrás da máscara?. E, há, ainda, o véu político, tão freqüente, quando o discurso ideológico e a sigla partidária para enganar o povo, por meio de finalidades ilegítimas. Forma de traição insidiosa, enquanto protegida pelo poder. (*) É médico.