Opinião
A transposi��o em xeque
| Marcos Carnaúba * Ao leigo parece sandice discordar da transposição que propõe doar água do São Francisco a famintos e sedentos de um Nordeste Setentrional onde os níveis de miséria são iguais aos nossos que tudo vemos perecer nas secas ouvindo o murmúrio do rio. A transposição conduzirá água ao longo de 2.200km de rios e canais para um pólo de fruticultura irrigada com raio de 300km centrado em Mossoró, vendida como ?água para todos e redenção regional?, falácia que só atingirá 3,5% do Nordeste seco. Os estados envolvidos: CE, RN, PB e PE têm 94% das águas acumuladas do Nordeste, 181 dos 266 maiores açudes além do Castanhão, o maior do mundo, cuja plenitude dependerá da transposição. A política de açudagem se mantém desde o século XVII no semi-árido de clima tropical com evaporação de um centímetro de lâmina d?água por dia provando ser de pouca valia armazenar água na superfície. A hidrelétrica de Sobradinho evapora 42 milhões de metros cúbicos por dia, água suficiente para abastecer todo o Brasil. A partir da década de 1950 o governo estatizou o São Francisco para a geração de energia construindo as hidrelétricas de Paulo Afonso, Sobradinho, Itaparica e Xingó, engessando a produção agroindustrial do Nordeste seco. A regularização da vazão do rio no baixo São Francisco, com brutal impacto local, desequilibrou o delta estuarino onde ora o oceano avança continente adentro destruindo o litoral e um dos mais piscosos ecossistemas brasileiros ora em decadência enquanto burocratas afirmam que suas águas se perdem no mar. Essas ações além de dessalinizadores, soro caseiro para diarréia, conviver com as secas, cisternas ? já usadas na era romana ? demonstram a incompetência de tecnocratas que há um século planejam a redenção do Nordeste, onde falta, apenas, uma política de gestão de águas, e ora querem impor mais uma falácia que não beneficiará o homem do campo! Sob a alienação de alagoanos, o Canal do Sertão se arrasta há 25 anos desde a sua concepção, enquanto a transposição se propõe, em dois anos, levar para oito grandes açudes um volume de água menor do que perdem por evaporação. Manifesto-me sob o amparo de ter sido o primeiro a contestar publicamente a transposição com argumentos técnicos e jurídico-ambientais em 2002, ao ver tantos leigos usando de sentimentalismo para defender um projeto inócuo para os flagelados de lá, prejudicial ao Nordeste de cá. Mais uma obra política, inútil e perigosa, incitando irmão contra irmão, nordestinos todos sedentos e famintos, que assim continuarão. (*) É engenheiro civil e consultor.