Opinião
O triste anivers�rio do massacre de Caraj�s
| Fátima Albuquerque * O relógio da história é movido pela energia de homens e mulheres que engendram diuturnamente novos acontecimentos por meio de suas milenares experiências. Por isso ele é implacável e alimenta sempre processos dinâmicos de ressurgimentos. Pautamos a nossa vida biológica, social e cultural considerando sempre a destreza desse relógio. Estudando a questão do crescimento e desenvolvimento dos seres humanos, verificamos que, do ponto de vista biológico, crescimento seria a aquisição de tamanho e desenvolvimento seria a aquisição de habilidades. Assim, esse processo teria uma característica primordialmente somativa, especialmente no sentido positivo de acumulações potencialmente benéficas para o ser. É claro que o processo não é estável, porque também recebe fortes interferências do meio ambiente onde está sendo inserido, mas se sabe que, à medida que se afasta do seu marco zero (concepção) e de seu nascimento, cada vez mais os fatores ambientais perdem a força de mediar este processo. Então, quando uma criança completa dez anos, ela está muito mais resistente ao estresse ambiental do que quando ela era recém-nascida. No dia 17 de abril a nação brasileira estará lembrando os dez anos do massacre ocorrido em Eldorado dos Carajás quando em 1996, 19 agricultores foram covardemente assassinados por policiais. Eram homens, mulheres e crianças que famintos e cansados, caminhavam rumo a Marabá, expressando o processo histórico de luta do povo brasileiro pelo direito à terra e ao trabalho. De fato, as mortes aconteceram, e inúmeras famílias ficaram indelevelmente marcadas pelo cenário de guerra que presenciaram, mas esse acontecimento é um marcador inequívoco de que a mesma teoria que vale para o crescimento biológico, vale para o crescimento do espírito de dignidade do qual somos herdeiros. Nesses dez anos, a luta pela superação da desigualdade na distribuição de terras está mais robusta, apesar dos constantes conflitos no campo entre trabalhadores e latifundiários. Pode-se dizer que o movimento continua crescendo e adquirindo habilidades de articulação para a negociação e o diálogo. Entretanto, a função social da propriedade que é garantida pela Constituição, não está sendo executada pelo Estado, e os latifundiários não desejam alterar suas posições. Quanto à Carajás... os culpados estão acobertados pelo medíocre destino da impunidade, o movimento de trabalhadores do campo continua lutando pela sua legítima liberdade e o Estado carecendo de assumir suas verdadeiras responsabilidades. O tempo e a história não param. (*) É professora da Ufal.