Opinião
Domingo de P�scoa
| Dom José Carlos Melo, CM * O vocábulo Páscoa provém das línguas hebraica - pesah e aramaica - pasha, que remetem ao verbo pasah, cujo significado é ?passar?, ?saltar?. A celebração da festa da Páscoa era originalmente agrícola, pastoril, quando os camponeses ofereciam na primavera, os primeiros produtos de suas colheitas e rebanhos. A partir desse substrato, por volta do séc XII A.C., a Páscoa começou a ser celebrada também como memorial do acontecimento fundador da história do povo judeu: o Êxodo, ou melhor ?os Êxodos?, tanto o do Egito quanto o das cidades - estados da Palestina. Esses relatos são muito marcantes nos livros do Antigo Testamento. Em ambos os casos os judeus conseguiram passar/saltar de uma situação de opressão para uma vida de liberdade, unidos por uma aliança entre Deus e o povo, cujo resultado prático foi a constituição de uma nação fraterna onde não havia espaço para a exclusão, isto é, onde tudo era polarizado pela dignidade das pessoas: havia convivência e trabalho para todos. Com o advento do Cristianismo, como se lê nos textos do Novo Testamento, a Páscoa recebeu um novo significado. Convictos de que Jesus de Nazaré é o Messias (em grego Cristos, isto é ?ungido?) aguardado há séculos pelo judaísmo, os cristãos começaram a celebrar também como uma passagem do estado de morte para um estado de vida. Com efeito, Jesus - assassinado em torno dos anos 30 da nossa era, no tempo do Imperador Romano Tibério - depois que seu túmulo foi encontrado vazio ( Mt 28.6), a inabalável fé na sua ressurreição fez com que os discípulos o reconhecessem como o Filho de Deus e o proclamassem Senhor (em grego Kýrios), pois nele residia todo o poder de seu Pai, identificado pelos cristãos como Iahweh do Antigo Testamento. A Páscoa tem, enfim, além do seu significado estritamente religioso, um embasamento antropológico, no sentido que a aspiração a um estado de vida livre pertence a mais íntima estrutura de cada ser humano e de cada comunidade humana, podendo ser perfeitamente compreensível e vivenciado até mesmo por quem não se considera religioso. Por isso os ideais da Páscoa judaico-cristã não são mero privilégio confessional; eles podem ser vistos como o patrimônio comum de toda a humanidade, uma vez que todo ser humano é polarizado pelo bem, pela verdade, pela justiça e pela solidariedade. Cada membro da comunidade humana aspira, de fato, à passagem de um estado de opressão e morte para um estado de liberdade e vida. Jesus morreu para nos fazer passar para a vida. (*) É arcebispo metropolitano de Maceió.