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O drama de um brasileiro

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| Anilda Leão * Chamava-se José Pedro dos Santos. Era um entre os milhares de desempregados em nosso País, com tanta coisa para se fazer, com tanta terra para ser trabalhada. Lá mesmo onde morava, lá pelo interior do Nordeste, terras e terras se estendiam mal aproveitadas, onde ele poderia levantar um casebre, plantar sua macaxeira, seus pés de cana, que isso bastava para matar sua fome. E a da mulher e a dos dois molequinhos. O homem vivia perplexo, e quantas vezes ele conversava com seus botões ? isto se tinha ao menos uma camisa, além das que ganhava em tempo de eleição ? espremendo a cuca, procurando entender o porquê de certas criaturas nascerem sem ter a mínima condição de sobreviver. Zé Pedro do Santos tinha os dois braços, as pernas, os olhos perfeitos. Só era magrinho, que feijão e carne eram coisa rara no estômago vazio. Mas se o nosso homem era válido, de nada adiantava; talvez se sentisse menos infeliz se não o fosse, a falta de trabalho teria ao menos uma explicação lógica e isso já seria um consolo. Por isso Zé Pedro vivia se fazendo uma porção de perguntas sem respostas. Um dia, sua mulher, que absolutamente não se chamava Amélia, aquela tão conhecida dos brasileiros que gostam de samba, cansou de passar fome e largou o homem. A mulher deveria ser bem ignorante e insensível, talvez por contingência da vida ruim que sempre levara, mas não agüentava mais ver os filhos chorando por falta de comida. Nem tolerava mais a refeição ?clássica? de todos os dias que era pedaços cozidos de mandacaru com farinha velha, bolorenta. E Zé Pedro não agüentou mais tanta desventura. Olhava aquele mundão de terra a se perder de vista, onde certamente havia belas fazendas, casas grandes, imensas plantações, gado pastando para o proveito de gente endinheirada, e ele ali, sem emprego, com fome e sem família. Pois apesar de tudo gostava da mulher e dos filhos. Sentia-se culpado e até desnaturado, uma coisa inútil dentro do mundo. E o pobre homem, não suportando mais o peso daquela existência ingrata, agarrou a faca peixeira que quase não servia para nada mesmo e rasgou o peito. Os jornais deram a notícia. Mais um desconhecido nas páginas policiais. Nós lemos. Poucos, porém, aprofundaram-se no drama de José Pedro e até acusaram a mulher que o havia abandonado. Não pensamos assim. A atitude da mulher foi apenas aquela gota que transborda... (*) É atriz, poeta e cantora.

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