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Nº 5730
Opinião

Os samurais brasileiros

| Marcos Davi Melo * O Centro Cultural Vergueiro é um complexo cultural localizado na Rua Vergueiro, principal via de ligação entre os bairros de Vila Mariana e Liberdade, região onde se concentram um grande número de grandes hospitais, como a Beneficênc

Por | Edição do dia 22/04/2006 - Matéria atualizada em 22/04/2006 às 00h00

| Marcos Davi Melo * O Centro Cultural Vergueiro é um complexo cultural localizado na Rua Vergueiro, principal via de ligação entre os bairros de Vila Mariana e Liberdade, região onde se concentram um grande número de grandes hospitais, como a Beneficência Portuguesa, o Servidor Público e o Hospital A.C. Camargo, o Hospital de Câncer, onde passo alguns dias fazendo costumeira reciclagem antes de começar a Jornada Paulista de Radiologia. Nesse centro cultural existe um cinema, onde passam filmes de arte em seções gratuitas procuradas por alguns médicos residentes desses hospitais. Meu filho Marcel, que aqui inicia residência médica é freqüentador do cinema e normalmente existem poltronas sobrando; contou-me que certa noite, encontrou imensa fila de espera. Como o filme Os sete samurais muito o interessava, aguardou na fila por quase uma hora até que avisaram que a seção estava esgotada. A explicação: como o filme era longa-metragem, mais de 4 horas, os sem-teto tinham invadido o cinema para algumas horas de repouso sobre um teto mesmo que sob os gritos dos samurais japoneses. Robert M. Sapolsky é um respeitado pesquisador americano em neurociências que agora lança a teoria (comprovada em necropsias de babuínos) na qual afirma que o estresse, além de induzir a depressão, hipertensão arterial, enrijecer as artérias, diminuir a libido, causa morte dos neurônios. Cita que ao contrário das zebras, que só se estressam quando visualizam um leão a espreitá-las e daí liberam a adrenalina, disparam para fugir da morte eminente e logo depois de escapar voltam a viver placidamente, o homem antecipa vivências estressantes que poderão até não ocorrer. Recomenda como remédio que o homem seja superficial e não valorize os problemas. Acontece que por mais sábio que Sapolsky seja não vive no Brasil, onde todo dia nos defrontamos com uma nova vivência estressante que não estava programada, como mais essa greve de 90 dias da Anvisa: os hospitais daqui estão ficando sem remédios para doenças graves como renais crônicos, como os cânceres. Os grevistas inventaram ainda uma discriminação odiosa: quando liberam alguns remédios, só os fazem para os hospitais públicos, como se os privados e filantrópicos não atendessem os mesmos pacientes do SUS. É o corporativismo grevista, mais um novidade detestável dos que desconhecem o Brasil real. (*) É médico e professor da Uncisal.

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