Opinião
Sem rumo - Editorial
Indiscutível é o anseio de quem quer terra para nela trabalhar, assim como é inquestionável que esse objeto de desejo milenar ? a terra ? pode ser trabalhada de forma construtiva ou destrutiva, daí ser recorrente o uso do termo ?terra arrasada?, fruto da ação bárbara de turbas agressoras e exércitos invasores ao longo da história. Barbarismo é o que se evidencia nas recentes ações dos auto-rotulados ?sem-terra? em Alagoas quando fazendas produtivas (e empregando muitas famílias de trabalhadores rurais) têm sido invadidas a despeito de não estarem incluídas no rol de propriedades passíveis de desapropriação para uso na Reforma Agrária. É possível argumentar que algumas das terras invadidas poderiam, em função de pressões políticas, tornarem-se desapropriáveis... Mas, mesmo considerando essa alternativa, como justificar o sacrifício de tantos animais de uma só vez? Numa das fazendas invadidas, cerca de 50 cabeças de gado foram abatidas num único dia. Mesmo com muitas centenas de famílias mobilizadas, não se justifica tanta carne disponível de uma só vez (sem sistema de conservação); e a coisa fica mais estranha ainda quando se sabe que os sem-terra têm cestas básicas religiosamente cedidas pelo governo. A matança fica parecendo ação deliberada para retaliação, ou mesmo uma provocação. Assim se parecem também os recorrentes saques a caminhões, que têm sido repetidamente aliviados de suas cargas durante bloqueios de rodovias. A cada dia parece que o espírito destrutivo vai apropriando-se daqueles que deveriam estar pleiteando a construção de uma nova realidade no campo brasileiro. Sem rumo, a bandeira da reforma agrária está sendo arrastada pelo chão do radicalismo estéril. Sem rumo, a força transformadora dos excluídos tende a ser canalizada para o atraso, para o barbarismo puro e simples.