Opinião
Lembran�as
Não será demais afirmar, por conhecimentos adquiridos desde Freud, que a memória além de guardar acontecimentos e fatos passados, reúne páginas conscientemente não lembradas quando revividas por associações positivas. Aproveitei um feriadão para atender ao convite de um amigo e conhecer sua fazenda recém-adquirida. Quedei-me mudo de admiração diante de um cajueiro centenário lá existente. Súbitas lembranças, em alto-relevo, me assaltaram. Já contei ao leitor que nasci na fazenda Mata Verde, no município de Traipu, a 50 metros da torrente impetuosa do Rio São Francisco. Um centenário cajueiro era uns dos pontos altos do pomar. Infância feliz: a prática da natação, a pesca sempre proveitosa, ?pés descalços e braços nus correndo pelas campinas?. São derradeiras atalaias desse passado. Gosto de poesia. E há um poema de Da Costa e Silva que repito, em alguns de seus versos, como uma perfeita descrição dessa época tão querida. Chama-se Saudade. Vejamos: ?Saudade! Olhar de minha mãe rezando, / E o pranto lento deslizando em fio... / Saudade! amor da minha terra... O rio / Cantigas de águas claras soluçando./ Saudade! O rio, velho monge /as barbas brancas alongando... E ao longe, / o mugido dos bois da minha terra.../. Por volta dos idos de 1945, o Rio São Francisco comandava nossas vidas. As ocorrências não estavam ligados às estradas, apenas carroçáveis. Botes, canoas de velas, e até um navio trafegava nessa artéria fluvial. O comendador Peixoto, esse era seu nome; fazia o trajeto de Penedo à cidade de Piranhas, de ida e volta. Na descida embarcavam os estudantes da margem que buscavam complementação dos estudos em Penedo. Lembro-me de um colega de Pão de Açúcar, Átila Pinto Machado, boa prosa e muita simpatia, companheiro desse percurso. Anos depois esse foi o caminho que fizeram Roseane Rodrigues, Ana Dayse Dórea, Rui Machado, Edmar Lima Dias, entre tantos outros amigos e conhecidos. Ah! Velho Cajueiro, amigo de minha infância, tenho desculpas a lhe pedir; à sua sombra armei alçapões para aprisionar pintassilgos e curiós; arapucas para pegar rolinhas e sabiás; tiros de espingarda para atingir juritis e codornas. Perdoe-me, velho cajueiro: nessa época eu nada sabia sobre a importância de preservação da natureza, do meio ambiente, do respeito aos seres vivos. Para penitenciar-me, ensinei às minhas filhas, netos e bisnetos o necessário respeito à natureza e o muito que devemos ao planeta que nos abriga. Não pratiquei essas maldades pelo exercício da vontade, mas por desconhecimento dessas sagradas obrigações. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.