Opinião
Excesso de processos: onde est� a culpa?
| Eduardo Dantas * É facilmente perceptível, em conversas, encontros e palestras, a perplexidade e indignação de médicos e profissionais da medicina, com relação aos constantes aumentos de processos judiciais movidos em razão de má prática. Com razão, muitos se mostram surpresos, uma vez que o exercício das profissões de saúde continua como uma das mais prestigiadas no conjunto da sociedade, e das mais concorridas nos exames vestibulares. Como pode, então, haver essa ?perseguição?? Muitas são as causas desses desencontros. A principal delas, todavia, é a perda de contato mais próximo, mais humano mesmo, entre o médico e seu paciente. A vida moderna fez com que o paciente deixasse de ser uma pessoa para se transformar em uma estatística, um número a mais na fila de atendimentos. O resultado é que na maioria das vezes o médico é escolhido simplesmente por estar de plantão, ou diretamente no guia médico dos planos de saúde, por seu local de trabalho ser mais conveniente ou por atender em menos tempo que seu concorrente, e o paciente, por sua vez, é rapidamente examinado, não tendo nome ou história clínica. Não há contato visual. Não há diálogo. Por certo, essa conduta favorece o erro. Plantões sucessivos e excesso de consultas não são recomendáveis sob nenhuma circunstância. Agir desse modo é facilitar o risco. Procedimentos realizados nesse ritmo são mais propensos a apresentar problemas. Some-se a isso a falta de diálogo, e se pode chegar à situação extrema de a doença ter sido curada, o tratamento ter sido correto, mas qualquer resultado adverso, qualquer efeito colateral - absolutamente normal e esperado - ser entendido como um resultado adverso, por parte do paciente, simplesmente porque não lhe foi comunicado tal possibilidade. Daí para um processo judicial não é preciso muito. As estatísticas mostram que pelo menos metade dos processos por má prática nasce da falta de um diálogo adequado, e não por conta do mau resultado. Essencialmente, o problema reside na comunicação (cuja falta também é origem de muitos dos casos reais de erro médico). É preciso, portanto, recuperar a desgastada relação médico x paciente, recebendo este último mais atenção, mais cuidado, mais respeito. (*) É advogado em Direitos Médicos.