Opinião
Sons mortais - Editorial
Reza a Bíblia que as muralhas de Jericó ruíram ao clangor das trombetas dos sacerdotes de Josué. Nos nossos dias muitos falsos profetas tentam se passar por enviados divinos e trombeteiam suas bazófias com a intenção de fazer esfarelar, pela força de suas ameaças, as muralhas de seus inimigos. Como de emissários divinos nada têm, não lhes vêm nenhuma ajuda dos céus e cidadelas seguem de pé. Daí, para honrar as intimidações alardeadas, lança-se mão do horror da violência da guerra; assim tem sido, há tempos. A todo pulmão sopram suas trombetas os radicais muçulmanos, os radicais israelenses, os radicais palestinos e todos mais. E mais que todos, inflam os peitos os radicais americanos. Nem o fracasso sangrento das expedições punitivas, como a do Iraque, tem sensibilizado esses radicais para alguma reflexão em busca de novas saídas para as crudelíssimas guerras localizadas que se espalham pelo mundo. Nada parece ser bastante desumano o suficiente para inspirar alguma reavaliação da política praticada. Argüindo-se em donos da verdade, os falsos Josués de hoje dispõem de verdadeiros poderes de morte e de destruição. Tocam suas trombetas sabendo que nenhuma muralha cairá ao som de suas gargantas. Tocam suas trombetas como anúncios fúnebres, aos quais ? mais cedo ou mais tarde ? seguir-se-ão bombas de verdade, letais sejam em sua forma de sofisticados armamentos teleguiados por satélite ou na forma de homens e mulheres vertidos em bombas humanas. Nestes dias, as trombetas dos falsos profetas estão sendo sopradas dos dois lados das muralhas iranianas. Do lado de dentro, bradam os aiatolás pelo direito à ciência atômica; do lado de fora, esgoelam-se os americanos dizendo o contrário. Ao fim e ao cabo, o mundo sangrará mais e mais. E a Paz será ainda mais afastada de todos nós.