Opinião
A praga populista
| MARCOS DAVI MELO * O caixão de Eva Peron foi o mais insólito despojo da era populista argentina que se iniciou com Peron, continuou com a sua segunda esposa Isabelita e ainda hoje causa estragos na ?ermana? vizinha. Tamanha era a veneração popular e a repulsa da classe média e de boa parte da intelectualidade, que o caixão de Evita (que os admiradores queriam venerar e os adversários queimar), passou anos em um périplo funéreo, que incluiu escondê-lo em cinemas, em clubes esportivos, em casas de subúrbio, em ?haciendas? do interior; em lupanares, até uma viagem clandestina ao exterior, de onde voltou para finalmente ser enterrado em cemitério de Buenos Aires, onde ainda hoje serve tanto de atração turística, quanto de romaria para os órfãos do peronismo. A ocupação militar e a expropriação dos campos de petróleo na Bolívia, perpretada por Evo Morales, é com as ações de Hugo Chávez na Venezuela, não só a reativação do populismo na América Latina, como a sua excacerbação em grau ainda impossível de medir. Que pode piorar muito com a eleição Peruana. Na Argentina, berço do populismo latino-americano, a chama do populismo não esmaeceu: as medidas populistas de caráter econômico de Kirchner já ameaçam a aparente estabilidade da economia argentina. Com a rara e limitada exceção do Chile, que mesmo elegendo uma presidente socialista, mantém a condução política e econômica que garante a continuidade das conquistas aferidas até agora, e que continuarão atraindo investidores internacionais, o resto do continente é um palco fértil para as investidas populistas que tanto atraso nos tem trazido. E, no Brasil, a figura populista de maior destaque, o ex-governador Anthony Garotinho, entra em uma greve de fome ridícula e imola a cabeça para os adversários do próprio partido, principalmente os que não querem candidatura própria, mas sim se coligarem com o candidato mais viável daqui há alguns meses. Se Luiz Inácio Lula da Silva, tudo bem. Se Alckmin, tudo bem também. Afinal, o populismo franco e declarado tem cara, o outro, é mais tinhoso, mais travestido de slogans partidários e propostas pseudo-sociais, mas tão danoso em suas conseqüências trágicas quanto o de Peron, o de Hugo Chávez e o de Evo Morales. Esse caixão ainda vai demorar a ser enterrado. (*) É médico e professor titular da Uncisal.