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Viol�ncia e omiss�o

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| ROBERTO BASTOS COSTA * A situação de um jovem de 22 anos de idade vítima da violência que assusta este Estado e esta nação, sujeito a paraplegia definitiva, sem um dos rins e com uma bolsa coletora ligada diretamente à bexiga tem me levado a relembrar uma situação vivida na minha infância. Na primeira metade da década de 1960, ainda criança passava minhas férias nas terras dos meus tios, no município de Capela. O passatempo mais comum era ajudar aos filhos dos moradores nas pequenas tarefas como pegar as penas do pavão quando ele abria a sua bela cauda ou ajudar a trazer capim da plantação para os burros da fazenda. O que para os outros era trabalho para mim era diversão. Um desses, já adolescente me impressionava. Ele era sério, sempre responsável e dedicado no que fazia, raramente ria, mas mesmo assim era simpático. Num dia, ao discutirmos o que queríamos ser no futuro, diversas ocupações foram reveladas desde vaqueiro, passando por franciscano chegando a cambiteiro. Ele que escutava a nossa conversa virou-se para nós e disse de forma orgulhosa: ?Quando eu tiver maior, vou ser motorista ou pistoleiro?. Aquilo não me causou indignação. Eu não tinha noção da escolha dele, mas fiquei curioso e levei um bom tempo para entender. Na realidade o que ele queria dizer é que ia ser importante. Com essa escolha teria o respeito do patrão que escolhesse e da comunidade da qual fazia parte. Senão pela importância da escolha, mas, pelo medo. Aquilo me parecia natural. Ele sonhava grande. Queria ser reconhecido e, principalmente, não tinha outra perspectiva ou alternativa que substituísse um sonho que para ele parecia tão grandioso. Se ele fosse adolescente nos dias de hoje, morando nas favelas ou na periferia de nossas cidades talvez não tivesse pensamento diferente, por incrível que pareça. Não teria como resistir aos apelos de consumo ou sucesso do mundo moderno. O uso de roupas de marca, celular multifuncional ou produtos os quais oferecem um mundo fantástico de felicidade e prazer. A ilusão da droga oferecida de graça e cobrada a peso de ouro no vício. Sem ter onde buscar recursos para tanto apelo e sem alternativas, é difícil resistir. Possivelmente seria muito mais perverso. A escola freqüentada não é daquelas que prega piedade e ética. Não estaria protegido como naquela época, apesar da importância de seus patrões que se escondem em instituições civis ou militares, nos diversos poderes constituídos ou casas legislativas denegrindo a imagem da maioria dos membros e da própria sociedade que os coloca lá por vias direta ou indireta. Às vezes acobertado pela omissão, pelos acordos, pela covardia ou pelo poder econômico. Aqui não existem novidades. Os exemplos são muitos no País inteiro. Lamentável. Quantos jovens terão de morrer ou se tornarem paralíticos, quantas lágrimas mais terão de ser derramadas por mães, pais, parentes e amigos até que a situação seja revolvida? É doloroso dizer, mas não existe governo que resolva essa situação. Não dá para ficar calado e escondido debaixo dos aquecidos cobertores, protegidos por cercas elétricas e vigilância particular até que venhamos a ser vítimas e aí poderemos estar sós. Façamos a nossa parte por menor que ela seja. Ou a sociedade se envolve ou essa situação perdurará. (*) É membro do Instituto Sílvio Vianna.

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