Opinião
Era dos Extremos
| EDUARDO BOMFIM * Nesses seis primeiros anos do segundo milênio, acertou quem disse: ?no princípio, serão trevas. Depois as luzes surgirão?. Não é o primeiro período obscuro da História humana, talvez não seja o último. Em cada um deles, aconteceram as suas especificidades, as contradições que os marcaram. As lutas, as transformações científicas, tecnológicas, o velho contra o novo, debatendo-se pela sua permanência, gerando conflitos sociais, filosóficos. O excepcional historiador Eric Hobsbawm descreveu como a Era dos Extremos o que ele considerou o breve século 20. Dividindo-o em três partes ou eras. A primeira, da catástrofe, marcada pelas duas grandes guerras mundiais e, em conseqüência dos sistemas opressivos gerados nesse período, as revoluções sociais, as lutas de libertação nacional contra o colonialismo, o neo-colonialismo. A segunda, são os anos dourados. Decorrentes da paz congelada, ou, como é mais conhecida, guerra fria. Paradoxalmente, apesar da constante ameaça de um conflito atômico global, teria sido um tempo de extraordinária expansão econômica e transformações nas sociedades. Entre 1970 e 1991, do século anterior, Hobsbawm considera como o momento do desmoronamento. A débâcle dos sistemas institucionais que previnem e limitam o barbarismo contemporâneo, dando lugar à brutalização política e à irresponsabilidade teórica da ortodoxia econômica, proclama. Evidente que os fenômenos não se deram ao mesmo tempo e de forma igual em todos os continentes ou países. Existiram particularidades, contextos, provocando a descontinuidade dessas grandes ondas, em escala planetária. A História não acontece como na aritmética simples. Cada nação teria vivenciado subdivisões desses tempos. Gerações diferentes, surgiram em curto espaço temporal, carregando olhares, hábitos e conceitos próprios. Na política, como na guerra, existem os movimentos da estratégia e tática. O presente contínuo da ação, muitas vezes desprovida de chama, ideário - se há programa, falta a alma de Cervantes - exige que reflitamos sobre tudo isso. A necessidade radical de se refundar a República, as instituições, a própria atividade da política, em sentido mais progressista e transformador. (*) É advogado.