Opinião
Pol�mica local
MARCOS DAVI MELO * Ir para o trabalho por uma via pouco congestionada, se possível agradável e relaxante em uma parte do trajeto. Poder, no rápido intervalo do meio-dia, almoçar em casa e saber que o retorno para a labuta se fará sem maiores transtornos (entre outras variáveis), são diferenciais fundamentais, na qualidade de vida de uma comunidade. Maceió ainda oferece algumas peculiaridades bucólicas ? próprias de uma cidade pequena -, para quem souber aproveitá-las. No setor da orla que vai da Pajuçara à Jatiuca, entretanto, além dos moradores da região, muitos de outros bairros o utilizam diariamente, para praticar o cooper nas suas calçadas, aproveitando a ventilação, a paisagem e o barulho das ondas do mar ao quebrarem suavemente nas areias da praia. Ou para o tráfego de automóveis, que ali circulam amplamente todos os dias. Não nos enganemos, a qualidade de vida que uma comunidade possa desfrutar depende de um conjunto de pequenas coisas que fazem a rotina do dia-a-dia e não de acontecimentos extraordinários e esporádicos. A disponibilidade de opções de lazer, acessíveis e baratas à população ? não eventualmente, mas perenemente - , é tão importante e indispensável para o equilíbrio e a saúde de todos, como a oferta de empregos, educação e segurança. Florianópolis é a capital brasileira de melhor qualidade de vida pelo somatório dessas variáveis. O trecho compreendido entre a Pajuçara e o Hotel Jatiúca é hoje um ?santuário? para o lazer diário de um número imenso de pessoas, que tem esta região como principal e único reduto, para a prática das atividades que lhes mantêm a saúde em forma a um custo baixo ? os esportes aeróbicos e aos domingos o lazer com as crianças e toda a família, no trecho impedido ao tráfego de veículos. É inevitável, portanto, que um evento que tumultue e transtorne a rotina de vida da região mais agradável e procurada da cidade, por um período não só de quatro dias, mais de 45 ou 50 dias, tenha a cada proposta de realização, mais e mais resistências e objeções por parte dos que preservam a cidadania. Se fossem só os quatro dias da festividade ? o que já é intolerável para muitos, que abandonam suas residências compulsoriamente neste período -, já seria demais. Mas a coisa é muito pior. Para quem usa a região de alguma forma, seja morador ou transeunte, o transtorno começa com a edificação e só termina com o desmonte total da estrutura ? 45 a 50 dias em média -, o que obstrui as calçadas utilizadas pela população diariamente; impede totalmente o trânsito, derivando-o para uma única e congestionada opção; duplicando ou triplicando o tempo real desperdiçado dentro do automóvel, o que estressa injustificadamente os que só ficam com esta alternativa para ir e vir do trabalho. Some-se a este desconforto evitável o acúmulo de sujeita decorrente das levas de ambulantes que ocupam a região, vindos inclusive de outros Estados e que não têm local adequando para fazerem as suas necessidades fisiológicas e a inevitável aglomeração de marginais durante o festejo e completa-se o cenário de degradação ambiental e promiscuidade crescente a cada ano. Os empresários do setor hoteleiro, densamente concentrados naquela região, afirmam: ?O Maceió Fest não lhes traz benefícios, pelo contrário, não auxilia os seus negócios. Segundo as lideranças envolvidas, atrapalha e afugenta os turistas. A nossa jovial, simpática e bem-intencionada prefeita Kátia Born há de reconhecer: a medida que a cidade cresce e aquela região mais ainda, torna-se impossível conciliar este tipo de evento com a manutenção de um mínimo de qualidade de vida na região ? seja para moradores ou visitantes -, durante estes 45 ou 50 dias. É inevitável e urgente, se procurar uma outra opção para a realização do evento, seguindo o exemplo de outras capitais, onde se procurou preservar este insubstituível referencial na vida dos cidadãos: sua qualidade de vida. (*) É MÉDICO