Opinião
A paix�o do povo
EDUARDO BOMFIM * Durante a Copa Mundial de Futebol em 1970, existia nas esquerdas quase um consenso sobre a importância da derrota da nossa Seleção. O argumento era que, campeões, o regime militar, à época sob o reinado terrífico do general Garrastazu Médici, iria fortalecer-se mais ainda. Recentemente presenciei uma entrevista do jornalista Rui Castro que abordou, entre outros temas, o assunto. E disse que a Seleção de 1970 é lembrada em todo o mundo assim como se fosse o balé Bolshoi de chuteiras. E para os brasileiros, um momento sublime. Afirmam atualmente que alguns psicanalistas receitam, contra a depressão, que o paciente assista a pequenos trechos do campeonato de 70. Só alguns, porque ele na íntegra é dose cavalar. Quanto ao famigerado ditador, ninguém lembra o seu nome. Uma obra sequer, com exceção da rodovia Transamazônica, praticamente engolida pelo monumental rio e devidamente escondida sob as densas copas das gigantescas árvores. Evidente que o período de trevas, censura, assassinatos, torturas, jamais será esquecido e a punição pelos crimes, sempre cobrada. Mas o nome Médici sugere, vez em quando, um pesadelo tenebroso. Quem gosta de pesadelos? Serve também para que repudiemos qualquer tipo de aventura fascista no Brasil e no mundo. O futebol é uma paixão nacional que reflete um gosto popular pela arte das multidões, democrática, coletiva. A excelência da técnica, da improvisação, da situação imponderável que em segundos pode resolver positivamente uma adversidade irremediável. Chegou ao Brasil através das elites. De origem inglesa, embora afirmem os especialistas que os antigos romanos já o praticavam com as cabeças dos soldados derrotados pelo grande império. Refiro-me ao império romano, não ao atual. Mas foi conquistado pelo povo nos terrenos baldios e jogado com a pelota de couro ou, na falta de recursos, improvisava-se a famosa bola de meia. O grande futebol é o xadrez popular e mais complicado, porque as perdas pensam e agem. É paixão total. O sujeito pode torcer pelo Bangu, Madureira ou mesmo o Íbis de Recife, e eles são os maiores times do mundo, timaços absolutos e não me venham com conversa senão sai tapa e bofetões. É amor ao Brasil e às cores da pátria. Daí o ódio aos cartolas e aos jogadores mercenários que infestam o nosso futebol atual. É preciso compreender que quando a nossa Seleção viaja para outros países não se trata de um time, mas de um exército que irá defender a honra e o território nacional. A derrota é inadmissível. É traição à pátria. Copa do Mundo então é guerra mundial. O brasileiro, tolerante, mas não passivo, considera-se em estado de beligerância planetária de quatro em quatro anos. Não se atormentem os companheiros e companheiras que o povo sabe de tudo e muito mais. Eles simplesmente dão uma trégua de alguns dias aos que lhes atormentam e exploram impiedosamente através do desemprego e exclusão social. FHC e os outros da patota ficam para depois. E tem mais, essa coisa de que o povão, para adquirir consciência da realidade tem que sofrer, morrer de tristeza ou abdicar dos prazeres saudáveis da vida, afundar na depressão e ler manuais de masoquismo, é negócio de sádico. Vamos sofrer e torcer pela Seleção, que aliás não é esse balaio todo. E lutar por um Brasil e uma Alagoas melhores. E quem não quiser, que neste período alugue um vídeo e assista a uma ópera ou um filme ?cabeça?, de preferência, de Godard ou do Bergman. (*)É ADVOGADO