Opinião
Vencidos pelo medo
| GUSTAVO ACIOLI * São Paulo, 15 de maio. Dia para não lembrar. A cidade que não pára foi paralisada. Paulistanos e forasteiros nunca se sentiram tão iguais. Todos reféns do pânico. Assim como a neblina que vez ou outra cobre a capital, as ações do Primeiro Comando da Capital (PCC) pairavam sobre a metrópole. Amedrontados, apenas 30% dos alunos acordaram dispostos a ir à aula. Pudera. Na madrugada de segunda, mais de 50 ônibus incendiados na terceira noite de terror. Terror é termo superlativo, exagerado, adequado. O paulistano não teve ânimo para falar do Corinthians, da política, da religião. O tema era só um: o medo de ser a próxima vítima. A manhã de segunda foi contaminada pela boataria. O ?ouvi dizer? ganhou tanta força que não importavam as notícias. Do nada, surgiam relatos de atentados. Escolas e faculdades metralhadas. Verdade ou não, pouco importava. A confirmação oficial de um ataque distante servia para justificar boatos sobre atentados ao lado. Tudo era possível. No almoço, o PCC fez a cidade engolir seco. No começo da tarde, o gigantesco comércio não pagou para ver. Deixou os lucros de lado e cerrou as portas. Nem mesmo o sagrado domingo cristão tem esse poder. A cidade se rendeu, baixou a guarda. Às 15 horas, nenhum chefe ou patrão conseguiu acalmar os subordinados. Também tinham medo. Ninguém mais trabalhou. Todos rumavam para casa, precisavam de abrigo, segurança. O habitual rush chegou mais cedo. Qualquer buzina exagerada ou cano de escape estragado fazia muitos tremerem. Por conta dos incêndios, mais de 5 mil ônibus ficaram nas garagens, um terço da frota da cidade. Nos terminais de ônibus, de metrô e de trens metropolitanos, uma multidão imobilizada. Quem podia pagar, tentava os táxis. Mas eles também eram poucos. Uma romaria tomou a cidade para voltar para casa a pé. No domingo, em meio às notícias de rebeliões e assassinatos de policiais e civis, o governador Cláudio Lembo disse que ?tudo estava sob controle?. Ledo engano. A segunda-feira do medo será lembrada como o dia em que a cidade desejou, acima de qualquer coisa, chegar em casa a salvo. A polícia por todos os lados abusava das sirenes, com seus homens armados e tensos. Era comum ouvir que aquilo tudo parecia com o Rio de Janeiro. São Paulo não está acostumada a isso. Em São Paulo, comércio não fecha. Em São Paulo, a violência é setorizada, restrita aos anéis periféricos. Sempre se ouviu que em São Paulo o crime não comanda. Depois dessa terça-feira, tudo mudou. (*) É jornalista.