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Da ilha a grandes sert�es

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| TEOMIRTES BARROS MALTA * Na última sessão da Academia Alagoana de Letras, Solange Chalita apresentou um magnífico trabalho, com enfoque jungiano, ressaltando a plurissignificação da imagem arquetípica de A ilha, poema de Carlos Moliterno. Após cumprimentar Solange pela beleza do conteúdo da análise, fiz um ligeiro comentário sobre o livro de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, que agora em maio completa 50 anos de sua publicação. Esse livro foi considerado pelos críticos como a obra-prima da literatura brasileira do século 20. Depois, pensei na analogia existente para mim entre os dois grandes escritores. Moliterno pode ter construído sua ?ilha? isolada no oceano, enquanto Guimarães Rosa universalizou o sertão, usando o aforismo, ?o sertão é o mundo?. Entretanto, em A ilha, há nas reflexões do poeta um sentido universal no seu ?eu lírico?, que caminha por toda a poesia. Nisso está a grandiosidade de seus versos. ?Invento a ilha numa tarde clara, /numa tarde de sol, de luz, de sal, /E das águas retiro espuma e algas, /Para formar seus vales e enseadas?. O poeta ao criar sua ilha, cria seu micro-universo, talvez numa tentativa de decifrar o enigma do homem, os seus mistérios, a problemática do ser ou do não-ser. Como um deus, tem o poder de construir e destruir. Assim destrói sua ilha e a cobre no seu corpo decalcado em linhas retomadas da memória. Morreu o poeta declarando: ?e a morte me ensinou que a vida é bela, /mesmo sem sol, sem lua, mas apenas, /tendo uma ilha em minhas mãos nascendo?. Em Grande Sertão: Veredas, o personagem-narrador, Riobaldo, conta para um presumível ouvinte sua travessia no sertão, expondo suas inquietações filosóficas sobre a vida, origem de tudo, Deus, o Diabo. ?Contar é muito dificultoso?, ele afirma. Outro grande personagem, Joca Ramiro, ?o homem de três alturas?, o maior chefe dos jagunços, mostra um grande senso de justiça e ponderação. Hermógenes, o ?Judas?, encarna o Diabo. Diadorim é o amor proibido de Riobaldo, o herói da história. Travestindo-se de homem, ela esconde sua real identidade. Na luta com Hermógenes para vingar a morte do pai Joca Ramiro, ambos morrem. Riobaldo, arrasado com sua dor, afirma: ?Diadorim tinha morrido ? mil-vezes mente, para sempre de mim e eu sabia, e não queria saber, meus olhos marejavam?. Gimarães Rosa, mineiro, faz uma recriação da linguagem, dando maior grandeza ao discurso, criando neologismos, usando aforismos, onomatopéias e aliterações. Seu livro atinge uma dimensão filosófica e o escritor reencontra e reconstrói o cenário do sertão tão marginalizado. O sertanejo não é simplesmente o ser humano rústico que povoa essa grande região do Brasil. Nele há o eterno conflito entre o ser humano e o destino que o espera, a luta sem trégua entre o bem e o mal dentro de cada um. Deus e o Diabo, a morte que nos despedaça e o amor que nos reconstrói, num clima muitas vezes mítico, mágico e obscuro. ?O sertão é o mundo?. (*) É da Academia Alagoana de Letras.

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