Opinião
Livro � o melhor rem�dio
| CLÁUDIO PIMENTEL * Sou um observador de ruas. Seus símbolos, seus personagens, suas alegorias. Procuro ver a relação lógica ou contraditória entre um e outro. É um exercício delicioso, engraçado num momento, triste na maioria das vezes. As ruas se expressam como ficção. Às vezes não dá para crer. Recentemente fechou uma livraria na Ponta Verde. Fiquei desapontado com o triste capítulo e tive uma reação apaixonada, porém contida e solitária. Primeiro, amaldiçoei a mim por não ser um freguês mais freqüente. Depois, amaldiçoei a todos por não serem sequer fregueses eventuais. Se houvesse moradores com o hábito de leitura, o destino da livraria talvez fosse outro. Continuaria ali escrevendo sua história, espalhando conhecimento e inspirando homens e mulheres. Naquela região, por exemplo, poder aquisitivo para isso não falta. Constatei que era página virada o privilégio de ter a alguns metros de minha casa o prazer de poder folhear um livro novo ou de sentir aquele cheirinho de tinta das páginas impressas. Quem gosta de livros sabe como é estimulante se deparar com um título inventivo, com uma capa criativa ou com uma edição há muito esgotada. Não há maior prêmio do que se perceber segurando uma obra prima ou uma raridade. E mais: depois de tudo, levar um livro para casa. Esqueci o assunto até o dia que vi se instalar no local uma farmácia, com suas injeções, seus analgésicos. Fiquei anestesiado. Assim como as salas de cinema têm virado templos evangélicos, engasguei diante da ameaça de haver uma conspiração para transformar livrarias em drogarias. Na Ponta Verde, a chegada de outra farmácia é uma overdose. O bairro está infestado delas, um mal, aliás, do qual Maceió inteira padece. Fui inoculado por uma curiosidade mórbida. Por que tantas farmácias concentradas num único lugar? Qual é o segredo de tanta prosperidade? Porque os remédios atraem tanto? Enfim, que destino é esse que reservou ao bairro um contingente de hipocondríacos maior do que o de leitores? Aposto que muita depressão e enxaqueca teriam melhor sorte com um bom livro. Não tenho nada contra as farmácias ou contra aquela em especial. Seria o fim da picada culpá-las pela preferência do público. Tenho um compromisso com o inusitado. Afinal, quais são hoje os grandes males do mundo? Aleatoriamente posso citar: guerras, fome, pobreza, racismo, fanatismo, ignorância, corrupção. São doenças que fazem mal. São doenças que matam em série e estão destruindo o planeta. E a cura não está nas farmácias. A cura está nas livrarias. O livro é o único remédio contra o obscurantismo. (*) É jornalista.