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Opinião

O humor � s�rio

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| MARCOS DAVI MELO * Afinal, diante do mundo em que vivemos o riso é uma afronta? No livro Literatura européia e a Idade Média, de Curtius, existe uma digressão sobre a Igreja e o riso em que se relata que sobretudo nos ciclos eclesiásticos, do começo do cristianismo ao fim da Idade Média, as pessoas se perguntavam se Jesus alguma vez rira em sua vida terrena. O tema não é anedótico, deve ser observado em seu contexto medieval próprio, em que, inclusive no meio universitário era também muito debatido. Tanto é assim, que no século 13, a Universidade de Paris, como tradicionalmente fazia, organizou um de seus quod libet anuais ( um tipo de debate aberto ao público em geral ) justamente sobre esse assunto. Paralelamente, outro tópos circulava por toda a Europa, era a tese de Aristóteles, desenvolvida na premissa de que o riso é um traço distintivo do homem. Disso, surgiu na tradição latina cristã medieval, uma expressão interessante, embora muitas vezes mal interpretada ? o tema do homo risibilis. Esse não é, obviamente, o ?homem ridículo? ou o ?homem de quem se ri?, mas ?o homem dotado do riso?, o homem cuja característica mais marcante é o riso. Dessa forma, desenvolveu-se um caloroso debate: se Jesus, o grande modelo para a humanidade, que será cada vez mais apontado como o que deve ser imitado, não rira sequer uma vez na sua vida humana, então o riso se torna estranho para o homem cristão. Todavia, o riso segundo Aristóteles é um traço distintivo do homem. Felizmente, hoje, ambas as visões são encontradas em autores eclesiásticos e não existe nenhuma heresia no riso. Melhor assim, pois que no meio de tanta coisa ruim ? terror em São Paulo, violência generalizada, corrupção etc ? surge enfim a exposição de Enio Lins contando a história do Brasil em charges, retrospectiva proporcionada pelo talentoso dublê de jornalista e chargista, que nos brinda diariamente com suas bem-humoradas charges na Gazeta de Alagoas. Um sábio disse que os chargistas são os filósofos de época, porque retratam a bico-de-pena e em um único quadro o que acontece de mais importante no cotidiano; o que os outros mortais só o conseguem (e quando o conseguem) com um extenso e muitas vezes aborrecido arrazoado. Não raro me defronto com uma charge do Enio ou de outro privilegiado, como Nani da Folha de São Paulo, ou Caruso de O Globo, que tem um nível de síntese e transcrição da situação analisada semelhante e de tal forma me sinto contemplado, que já me dou por satisfeito. Naquele dia não preciso ler mais nada do jornal. (*) É médico e professor da Uncisal.

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