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Caricaturas de �ndios

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| CARLOS BONFIM * Uma tese de doutorado defendida há pouco na Ufal tem ocupado, ainda discretamente, a pauta de alguns meios de comunicação do País. Trata-se da pesquisa realizada por Maria Pankararu, pesquisadora da etnia Pankararu, que se debruçou sobre a língua da comunidade ofayé, do Mato Grosso do Sul. A notícia sobre a tese de Maria Pankararu começou a circular pela imprensa na mesma semana em que os jornais publicavam também uma série de charges alusivas aos desdobramentos da recente crise do gás na Bolívia. E o que se via na maioria das charges dos jornais brasileiros eram bolivianos retratados com suas ?roupas típicas?: ora apareciam trajando poncho, gorro e sandálias, ora com uma pena sobre a cabeça. De um lado, a surpresa: uma indígena doutorando-se; de outro, a caricaturização. Em ambos casos, a perpetuação de um estigma. Índio numa universidade ou nas páginas de jornais? Ou é objeto de estudo ou foi vítima de massacre... O que dizer, então, de um indígena no governo de um País? Pode-se não estar de acordo com as políticas desse ou daquele presidente, mas daí a representá-lo do modo estereotipado como tem sido feito, é algo que não apenas empobrece o debate, mas sobretudo dilata as brechas que nos separam de nossos vizinhos. E mais: perpetua nossa ignorância histórica do que sejam culturas indígenas de qualquer latitude. A charge é um ponto de vista bem-humorado ou irônico, que opera, por definição, pela via do exagero: isola, exacerba ou sublinha características físicas ou psicológicas do personagem retratado. E faz rir. Mas também estigmatiza. E ao estigmatizar, contribui para nossa desinformação congênita. Seguir aceitando essas caricaturas, significa continuar acreditando que nossa história só pode ser contada por vozes brancas, masculinas e européias. Significa continuar acreditando que os outros é que são étnicos, culturalmente peculiares, legítimos objetos de estudo. Poderíamos aproveitar os dois episódios (a de Maria Pankararu e a crise do gás na Bolívia) para perguntar-nos se não estamos contribuindo para a perpetuação desses estereótipos. Para perguntar-nos se não seria hora de começarmos a nos interessar também por conhecer os trabalhos que vêm sendo realizados há tempos nas comunidades periféricas brasileiras; conhecer trabalhos como os realizados pelo Conselho Latino-americano de Cinema e Comunicação dos Povos Indígenas. Ou, no caso específico da Bolívia, conhecer o trabalho de artistas como Roberto Valcárcel e Reynaldo Yujra, ou de autores como Freya Schiwy e Miguel Huarcaya, para ficar apenas em alguns poucos exemplos. Quem sabe assim, dentro de alguns anos, a notícia de que um estudante indígena terminou seu doutorado ou de que um indígena assumiu a presidência de um país, deixe de ser apresentada como algo inusitado ou caricaturesco. (*) É professor da Ufal.

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