Opinião
Racismo mesti�o
| ANA CLÁUDIA LAURINDO * Entre as lendas e mitos construídos pela cultura racista brasileira, destacamos o da mestiçagem, resultado da mistura de raças que se deu no Brasil, também como tentativa de embranquecer nosso povo e vencer a raiz negra trazida da África, e que era considerada inferior pelos ocidentais. Essa perspectiva foi levada tão a sério que se projetou para o ano 2012 um porcentual zero de negros no Brasil. Ser moreno ou pardo tornou-se um atenuante da identidade racial negra, uma espécie de meio termo e apelo simbólico à sociedade e sua elite de padrão branco, que construindo referenciais a partir de si mesma, convence-nos da representação herdada dos colonizadores. E tem determinado em nossos 506 anos de história, quem fica no centro e quem vai para a periferia da vida social. Falar em negritude é a urgência dessa sociedade de culturas mistas, que não percebeu sua opulência e silenciou partes da sua história, mantendo um perfil que vai da hegemonia branca à tolerância do moreno, e faz do preconceito de cor um fator de desigualdades que impede a mobilidade social negra. É necessário dirigirmos o olhar e encontrar o negro que aqui está. Aceitar e assumir essa cultura parida do ventre africano em terras brasileiras, promovendo-a muito além do 13 de maio, mas na cotidianidade de um povo que faz e refaz a história brasileira, inclusive em território alagoano, onde a negritude encontrou, historicamente, a perseguição e o desprezo. Terra de hábitos arraigados no alpendre da Casa Grande, Alagoas se abre pouco a pouco ao soar dos tempos, que anuncia convívios ecléticos, onde as culturas presentes se cruzam e crescem juntas. Não é mais possível olhar só para frente quando os lados estão abarrotados de gente. Gente de muitas caras, muitos gostos, muitas expressões. Assim, padronizar perde o sentido, quando as diferenças melhoram os sabores, os ritmos e enriquecem os ritos. Essa consciência não se prende a uma cor, é estrada aberta aos brasileiros para a redenção da exclusão e do racismo, que já justificaram a morte e hoje fomentam a luta pela afirmação das identidades raciais, principalmente a identidade negra. Por isso, há muito a fazer. Mais que monumentos em louvor da passiva doação do leite morno aos filhos de outros ventres, precisamos construir renovadas idéias e louvar a igualdade de direitos para os diferentes filhos dessa nação deixando cair o véu que está entre nós e o outro. Sem censuras ou condenações, sermos capazes de apreciar a mensagem guerreira do atabaque e ouvir sobre os desconhecidos caminhos da subjetividade negra. (*) É cientista social.