Opinião
Sentimentais
| GILBERTO DE MACEDO * As pessoas sentimentais se comportam de maneira afetuosa diante da vida. Revelam um estado de sensibilidade tocante na convivência. Disposição pessoal para sentir de forma agradável os merecidos e benéficos acontecimentos da vida. Predisposição para se comover com os acontecimentos emocionantes. Ser sentimental é se comover solidariamente em face das ocorrências pessoais de tristeza. É se comover com a beleza da natureza e da pessoa na figura e na imagem dos gestos e comportamentos. Uma atitude de profunda conotação romântica. Por isso, é que os sentimentais são facilmente tocados pelos atos humanos de valor. Viver já é, para eles, o motivo mais importante de ser. Eis que o poeta Carlos Drummond de Andrade tão bem recitava: ?Tenho apenas duas mãos/ E o sentimento do mundo.? Com as duas mãos escreve o sentimento que tem da vida e a admiração do mundo. Isso porque ser poeta já é ser inteiramente sentimental, expressando-se na linguagem estética. No caso citado, o sentimento do mundo já diz tudo de sua vastidão. Os sentimentais emocionam-se fácil e intensamente, quando talentosos sublimando-se com a criatividade na arte, particularmente na poesia e na canção musical. Tempos atrás, através da nossa música popular, ouvia-se a voz do cantor, a se expressar: ?Sentimental, eu sei que sou,/ eu sou de mais...? Expressão do sentimento do povo. Envolvem-se com os acontecimentos ao seu redor, ou à distância pela comunicação da leitura romântica, e noticiários através dos meios de comunicação de massa. Opostos aos sentimentais são os indiferentes, aqueles que não se afetam por coisa alguma. São fechados, distantes, frios, neutros. Confundem isso com atitude corajosa. Chesterton dizia a respeito: ?O miserável temor de ser sentimental é o mais vil de todos os temores modernos.? É a maldade do orgulho revestida de falsa superioridade. Lamentavelmente, essa indiferença negativa da solidariedade social e da fraternidade humana é uma contingência dos tempos atuais sob o signo do materialismo e da mentalidade ambiciosa, que gera o comportamento competitivo. Como dizia Goethe, a respeito: ?Os sentimentos delicados que nos dão a vida, jazem intumescidos, na confusão mundana.? É que para os tais insensíveis, o mundo são os seus limites individuais, definidos pelo vil egoísmo; não amam, não sofrem, nada lhes comovem. Louvemos, pois, os sentimentais. Reprovemos os indiferentes. Ter-se-á um mundo humanizado pelo sentimentalismo, que expressa a linguagem da alma. (*) É médico.