Opinião
Copa e cidadania - Editorial
A partir de hoje, mais uma vez, a pátria calça chuteiras. A definição feliz de Nelson Rodrigues ? a cada Copa do Mundo ? confirma sua validade. E, com a repetição das conquistas, esse sentimento vai ficando mais forte. A seleção canarinho vai multiplicando seu papel de catalisadora do melhor do sentimento da nacionalidade. Coincidentemente, nos últimos tempos (pelo menos), o ano de Copa tem coincidido com o ano eleitoral. E, infelizmente, várias contradições entre os sentimentos gerados por esses dois momentos importantes montram lamentável desequilíbrio entre as formas de se enxergar um e outro evento. Ao se olhar para a seleção, ao acompanhar todos os lances da preparação, da disputa do mundial de futebol, o brasileiro se transmuta em esperança, todo mundo vira técnico, todo mundo critica positivamente, todo mundo aposta em suas próprias opiniões. Qualquer brasileiro sabe quem é quem na seleção ? e ai de quem pisar na bola! Mas o sentimento é positivo, o sentido é superar obstáculos, vencer inimigos. Ao se olhar a eleição, ao acompanhar os lances do jogo político, do desempenho dos políticos e dos partidos, o brasileiro se transmuta em desesperança. Descrê de tudo e de todos, e a crítica negativa tende a ser voz comum. Só os pontos negativos são computados e sem a capacidade de distinguir algo de positivo, de se corrigir injustiças, o desalento é crescente. Não se luta para vencer obstáculos, para selecionar e separar nomes dignos dos indignos. Vamos à Copa do Mundo. Estamos no processo eleitoral. O melhor seria que um pouco do entusiasmo, do sentimento positivo, da certeza da superação de obstáculos ? sentimentos da alma futebolística ? migrassem (nem que fosse um pouco) para a alma política. Assim, como temos vencido nos gramados, venceríamos também, no campo político, as seleções contrárias à cidadania.