Opinião
A obsess�o do drible
| MARCOS DAVI MELO * Segundo Paulo Mendes Campos, Ari Barroso até 1958 implicava muito com Garrincha. Cita um jogo transmitido na televisão por Ari: ?Garrincha com a bola. Vai driblar. É claro. Vai driblar de novo. Vai perder a bola. Olha aí, um saçarico pra cá, outro pra lá. Garrincha passa pelo adversário. Assim também não é possível! Vocês estão vendo? Garrincha vai driblar de novo. Vai perder! Por que ele não centrou logo? Claro que vai perder. Gol de Garrincha.? A última frase saiu seca e mal-humorada, Ari Barroso foi o último a ser driblado pelo Mané. O futebol é paixão que divide e une os homens como o álcool. Há os alcoólatras do futebol. Paulo cita o caso da decisão de 1958. Raimundo Nogueira, Haroldo Barbosa e Fernando Lobo tinham fugido da raia por prudência de ordem coronária e, foram pescar sem rádio na Barra da Tijuca. Ouvindo o foguetório, vieram em desabalada para Ipanema e invadiram o bar onde os colegas escutavam o jogo com quilos de talco, reminiscências do carnaval de Pernambuco. Isso e muito mais está no livro O gol é necessário, que tenho na cabeceira e uso sempre que quero espairecer. Garante que se um grupo de garotos estiver batendo bola na rua e passar um senhor austero e rigoroso e a bola sobrar para ele, em sua sisudez não resistirá; vai rebater a bola com o pé. Pode até não sorrir abertamente, mas vai prosseguir sua jornada um pouco mais leve, mais criança. O futebol pode nos dar grandes alegrias e também decepções. Na seleção atual, Ronaldinho Gaúcho pode ou não confirmar que é o melhor do mundo, mas só se repetir o que joga no Barcelona. Todavia, Kaká não só com o seu talento, mas com sua aplicação é o retrato do Brasil que almejamos: um País que vence pelo talento, mas também pela seriedade, pela dedicação, pela integridade, pelo espírito coletivo. O excesso de badalação que cercou a seleção na Alemanha, ainda não trouxe prejuízos visíveis. Mas estamos com a mesma postura da seleção argentina na copa de 2002 e ela não passou das oitavas. Agora, embora tenha o melhor banco avançado da Copa (Messi, Tevez e Aymar), está cabreira, quieta, espertamente sacudindo o favoritismo para o Brasil. Brasil de tantas vitórias no futebol, essa legítima paixão nacional. Brasil de tantas derrotas na vida pública. Brasil do TSE que em um dia dá um drible para frente e no outro dia dá um drible para trás, marcando gol contra. Com um time vacilante dessa ordem, defendendo o mais alto escalão jurídico-eleitoral brasileiro, a seleção canarinho, composta por iletrados, ainda é a melhor opção para defender as cores nacionais. (*) É médico.