Opinião
Atacama nordestino
| JORGE BRISENO * A data 17 de junho foi estabelecida pela Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento como o Dia Mundial de Luta Contra a Desertificação. A ONU definiu o ano de 2006 como o Ano Internacional dos Desertos e da Desertificação. A desertificação e a perda de solo arável devido ao manejo inadequado da terra se juntam aos graves problemas ambientais enfrentados pela humanidade, como o aquecimento global provocado pelos gases do efeito estufa, desmatamento crescente, escassez da água potável que já atinge mais de 1 bilhão de pessoas, aumento do nível dos oceanos, extinção das espécies numa escala nunca antes atingida, poluição do ar nos grandes centros urbanos etc. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, só na América Latina e no Caribe, 24 bilhões de toneladas anuais de solo deixam de ser aptos para a produção de grãos. Técnicos do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura alertam que as perdas econômicas anuais atingiram a impressionante cifra de 4 bilhões de dólares em todo o mundo. Esse valor não leva em conta a necessidade de 10 bilhões de dólares anuais para a recuperação das áreas já em processo acelerado de desertificação. Infelizmente a humanidade está mantendo padrões de consumo maiores do que a Terra pode suportar, utilizando-se de formas de produção absolutamente insustentáveis e em completa desarmonia com os ciclos da natureza. Apenas no século 20, a área afetada pela seca, por causa da utilização inadequada dos recursos hídricos, aumentou mais de 50% em todo o globo. Essa área corresponde a aproximadamente 5 bilhões de campos de futebol. Mais de 1/3 da população mundial vivem nessas áreas. Desse total, 1 bilhão reside em áreas rurais e são extremamente pobres. No Brasil, a aridez cresce à taxa de 3% ao ano. Quase 1.500 municípios brasileiros estão em regiões de climas extremamente favoráveis à desertificação, onde residem 32 milhões de brasileiros. A maior parcela desses municípios está situada no Nordeste. Pesquisas da Universidade de Brasília mostram que a continuar o ritmo de exploração da caatinga pela pecuária, agricultura, retirada de lenha e salinização de áreas irrigadas, o País pode ter 15% de seu território transformado em algo semelhante ao deserto do Atacama, localizado no norte do Chile, que se configura como uma das zonas mais áridas do mundo ou como o deserto de Gobi, no norte da China, cujas tempestades de areia atingem Pequim cobrindo-a, em alguns períodos do ano, com uma camada de areia e pó tornando o ar irrespirável. Mais grave do que essa situação que a humanidade enfrenta é o deserto de idéias e a aridez de soluções que impedem que nos afastemos dessa trajetória irresponsável. (*) É engenheiro e presidente da Casal.