Opinião
Tortura ps�quica
| ANA MARISE LIMA MIRANDA * Ah! A nossa seleção de futebol! Vejo jogos da Copa do Mundo desde a conquista do tricampeonato, quando nossa seleção conseguiu a fama de ?melhor do mundo?! E se naqueles tempos nosso povo despejava a grande maioria de suas aspirações sobre os ombros de Pelé, estavam de parabéns o Brasil que exigia e o jogador que correspondia às expectativas de seus fãs. O fã ama seu ídolo! E o amor pode tornar-se egoísta e exigente com o ser amado. É isso que estamos fazendo com o fenômeno Ronaldo: Exigindo dele o que queremos que seja feito, a perfeição no que não sabemos fazer... Dar chutes a gol! E a vida já nos mostrou que Ronaldo não consegue dar o melhor de si estando sob pressão. E quanto mais se exige dele, quanto mais se critica, menos ele corresponde às nossas expectativas. Gostamos dele exercitando o amor egoísta que pega pesado, cobrando uma responsabilidade que não é apenas dele, mas de toda a seleção. Antes de perguntar ?e os nossos outros jogadores?? Falamos mal de um Ronaldo que, psicologicamente, não consegue corresponder às nossas exigências. Frases do tipo ?ele está gordo? ou ?coloca Robinho como titular? batem na auto-estima do jogador, que só é para nós ?fenômeno? se fizer exatamente o que esperamos que faça. E quanto mais nos mostramos exigentes, mais o massacramos, talvez até o estejamos torturando mentalmente, psicologicamente... E quanto mais o responsabilizamos por satisfazer as nossas vontades, mais lhe pesam as pernas, mais lhe dói a cabeça... Fica pior! Joga pior! Nossa seleção não tem somente um jogador e quase todos, com raras exceções, não corresponderam às nossas expectativas. Por que escolhemos Ronaldo, que sabemos não agüentar pressão, para depositar em seus ombros o fardo de ser nosso ?salvador da pátria?? Ou aprendemos a admirá-lo como jogador reconhecido no mundo inteiro, apesar de suas limitações, ou ficaremos todos roucos de gritar impropérios que servem apenas para intimidar qualquer pessoa. E Ronaldo, antes de ser ídolo é uma pessoa comum. As críticas cada vez mais prenderão suas pernas limitando seus movimentos em campo. E isso é tudo que não queremos que aconteça! (*) É médica e psiquiatra.