Opinião
A mesmice de Alagoas
| Marcos Carnaúba * Agreste e sertão ocupam 48% da área territorial do Estado e os alagoanos se expressam sob a convicção de pouco sofrermos os efeitos da seca que se amiúda, razão de Alagoas não aparecer na mídia com a freqüência dos demais estados, não havendo interesse em divulgar a fome e a miséria, a morte de anjos e velhos, a perda dos rebanhos e a desilusão dos que ali sobrevivem esperando as sobras de escassas verbas que outros estados buscam primeiro. Remonta à década de 60 do século passado a implantação de adutoras propostas para abastecer a região com água do Rio São Francisco, grandes obras de engenharia implantadas em intervalos de 50km, que até hoje não atingiram os seus propósitos pela simples razão de não conduzirem água suficiente para dessedentar os cerca de 750 mil cidadãos que ali sobrevivem, encurralados entre canos esparsos aduzindo água de morro acima, violentando a lei da gravidade, enquanto campeiam a miséria e o desencanto em sucessivos governos. Essas adutoras implantadas durante o regime militar previam abastecer os centro urbanos ? calando os reclamos dos mais esclarecidos ? excluindo o homem do campo do acesso à água, inviabilizando a produção agrícola sob secas freqüentes, fomentando o êxodo rural e o inchamento de cidades retratado pela favelização, marginalidade, prostituição de jovens e tráfico de drogas. Estudo há 30 anos a seca e soluções para extinguir a miséria do sertão alagoano que adotei como se ali tivesse nascido, embora sob a resistência de tantos que me viam como um entrave aos seus interesses espúrios de manter currais eleitorais com carro-pipa e cesta básica que persistem até hoje. Não adianta ampliar adutoras de alto custo de operação, que conduzem pouca água e são violadas para abastecer açudes e a própria população rural. Defendo há décadas o Canal do Sertão ? obra em andamento com prazo muito longo ? como opção de melhor técnica para transformar Alagoas no celeiro do Nordeste conduzindo 20 vezes mais água do que a soma de vazões de todas as adutoras, beneficiando 35 municípios incluindo, dessa vez, não só as cidades, mas também a zona rural onde estará fixado com dignidade o homem do campo. São muitos os que externam a sua pequenez se contrapondo a um projeto que visa o bem-estar social de degredados filhos da seca sob o mesmo argumento de ser dirigido para beneficiar latifundiários conhecidos que há anos já se desfizeram de suas terras. Como desconheço terra e mulher bonita que não tenham donos continuo esperando que um dia Alagoas saia da mesmice! (*) É engenheiro civil consultor.