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O amor em Dostoievski

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| DOM FERNANDO IÓRIO * Apesar do desgaste, é o amor vivido no cotidiano de nossa existência e o verbete, que lhe dá significado, não deixa de ser usado nas obras literárias. Nesse particular, não são poucas as personagens de Dostoievski que bem retratam o amor. Assim Zóssima que o romancista russo, em Os Irmãos Karamazov, descreve e do qual transmite as palavras, como se fossem um restamento: ?... ama a criação de Deus. Ama a cada pequenino grão de areia. Ama a cada folha, a cada raio de luz. Ama os animais, as plantas, cada coisa. E ao amar cada coisa, compreenderás o mistério do amor de Deus em tudo. E, finalmente, amarás o mundo inteiro em sua unidade, com um amor que abrange o universo?. Para Dostoievski abrange tudo. Dirige-se a tudo, jamais a uma única pessoa. O amor descobre em tudo o mistério de Deus: em cada semblante, em cada grão de poeira, em cada folha de grama. Para Dostoievski o mistério da vida humana está nessa capacidade de um amor puro, tal como o de Zóssima ou de Aliocha, o caçula dos Irmãos Karamazov. Para o romancista russo, consiste o inferno na ?dor de não mais poder amar?. Em seus romances, desenhou duas outras personagens capazes de encarnar o mistério do amor. Em ambas, descreve o amor intenso e apaixonado entre homem e mulher, quando parece reluzir o amor divino que brilhou em Cristo em nosso favor. O exemplo de Sônia em Crime e castigo, revela a mulher apaixonada que acompanha o assassino Raskolnikon até o campo de trabalhos forçados na Sibéria. Em seu amor, ela espera pela conversão, pela ressurreição de seu amor assassino, tal qual a ressurreição de Lázaro operada por Jesus. O amor do Mestre atravessara a pedra, atrás da qual, jazia Lázaro morto, já havia 4 dias. Em Crime e castigo, o amor tem êxito. Mishkin é personagem de O idiota. Trata-se do amor puro do ingênuo príncipe, que retrata o amor puro de Jesus não reconhecido pelos homens e mulheres do seu tempo. Nastácia Fillipovna sente que o amor do príncipe poderia salvá-la, mas acaba optando pelo amor do homem que será seu assassino, Rogoshin. Dostoievski descreve, de maneira impressionante, como é o amor capaz de matar, quando não é puro. O romancista russo procura despertar em nós o anseio por um amor sincero e puro como o de Jesus, vivido pelo príncipe. Acha o romancista que somente esse amor pode despertar para a vida e curar as feridas humanas. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.

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