Opinião
A fam�lia e a energizante atualidade
| JOSÉ MEDEIROS * Não é necessário recorrer ao Conselheiro Acácio ? personagem de Eça de Queiroz ? para repetir o óbvio: as sociedades passam, constantemente, por profundas modificações políticas, sociais, culturais e econômicas. As tecnologias, por sua vez, imprimem modelos nem sempre positivos e adequados as nossas vidas. O capitalismo afasta as pessoas transformando-as em bens de consumo. As crianças não têm tempo para serem crianças, estão sempre ocupadas com atividades paralelas, computadores e celulares. Os adolescentes reúnem-se em ?tribos?, longe das relações sociais. Os adultos passam por um processo de individualização, em que tudo gira em torno de dinheiro, uma busca incessante pela afirmação pessoal e por melhores condições de vida. Dinheiro? São bem antigas essas sábias palavras: no início eu tinha tempo, mas não tinha dinheiro; passados uns tantos anos, tinha dinheiro, mas não tinha tempo; quando tive tempo e dinheiro, a idade chegou e eu já não tinha a mesma disposição para aproveitar a vida. Onde estão nossas famílias? Pais, filhos, avós, tios, primos, pessoas que estavam sempre se encontrando para conversar, discutir, solidarizar-se nas situações complicadas, consolidando relações. O telefone substituiu, e muito, esses contatos tão aproximados. As refeições eram momentos certos de encontros. Esperavam-se o pai e a mãe, para esquentar de uma única vez a comida, pois não existiam fornos microondas que, hoje, facilitam a vida dos que querem fazer, a qualquer hora, suas refeições. Ainda que juntos estejam à mesa, a televisão é o grande atrativo e as crianças, com seus pratinhos feitos, não admitem perder os programas de seus ídolos favoritos. Em muitas famílias, ao chegar em casa, cada um vai para seu espaço; isolam-se em seus quartos ? miniaturas da própria residência ? equipados com som, tevê, computador e tudo mais. O que se precisa já está bem perto. Ir à despensa ou à cozinha para pegar um lanche? Para quê, se o frigobar já está bem à mão? Pode parecer puro saudosismo, mas são esses pequenos momentos de encontro familiar que fazem a vida mais prazerosa. Momentos que valem a pena viver. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.