Opinião
Povo em ora��o
| SÉRGIO COSTA * A visita inesperada dos sem-terra à Câmara de Deputados, em Brasília, causou frisson no meio político. Em nome da democracia e exigindo respeito às instituições públicas, parlamentares repudiaram a ação violenta dos manifestantes. Houve prisões. Também sou contra o quebra-quebra. Sou do bem. Mas gosto de polemizar. Por que invadir, apedrejar e quebrar é antidemocrático e desrespeitoso, mas roubar impostos da população, o mais hediondo dos crimes sociais, não o é?! Enfatiza-se, sempre, que os prejudicados devem procurar os caminhos da justiça para assegurar seus direitos. Por acaso seriam aqueles caminhos pelos quais tentamos impedir que os ?anões do orçamento?, ?bingueiros?, ?mensaleiros?, ?furneiros? e ?sanguessugas? se apropriassem dos nossos impostos?! Não, a impunidade nos diz que essas invasões aos nossos cofres públicos sempre foram bem acolhidas pela leniência e parcialidade dos órgãos fiscalizadores e da justiça. Diante desse quadro medieval, não há outro caminho a seguir senão usar a própria democracia para mostrar a nossa força. Afinal, não estamos sob regime autoritário, no qual o povo tem o dever de contribuir, mas não pode opinar nem exigir seus direitos. Rudolf von Ihering, jurista alemão, dizia que: ?Quem não luta pelo seu direito não merece tê-lo?. Encho-me então de coragem para fazer provocações. Mas não antes de dizer que quem conspira contra a democracia e o Estado de direito não é a revolta dos oprimidos, mas a insensibilidade dos seus opressores. Dito isso, entendo que os sem-terra, sem-teto, sem-justiça, os sem-orgulho, enfim, deviam marcar uma data para se reunirem nas praças públicas de seus Estados a fim de declamarem a seguinte oração, surrada, é bem verdade, mas precisa sair da boca do povo. Governantes do Brasil, ?os senhores podem não notar?, mas, apesar da alta carga tributária, o País não consegue crescer. Pelo contrário, endivida-se cada vez mais. Não menos pior: os serviços prestados pelo Estado não conseguem atender as nossas necessidades vitais. A situação está insuportável. Fervilha! Mesmo assim não gostaríamos de quebrar o que é nosso. Façam um exame de consciência! Não será difícil entender que a maioria das nossas manifestações é fruto do desespero de quem já chegou a triste conclusão de que esse estado de coisas representa uma agressão ao direito e a dignidade da pessoa humana. Perguntamos aos senhores: e se depois desses repetidos gestos de humilhação civil nada mudar, quais os caminhos que deveremos seguir? (*) É contador.