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Opinião

A coragem

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| Dom Fernando Iório * O verbete ?coragem? tem muito a ver com o latim cor, em vernáculo, ?coração?. Como o coração irriga o cérebro, os membros e os órgãos do corpo humano, assim a coragem torna possíveis as energias psicológicas do ser pensante. Sem ela as energias internas do homem e da mulher fenecem, estiolam-se, reduzem-se transformando-se em rebotalhos de virtudes. Para o ser e o vir-a-ser do ser humano, mister se faz a coragem. Transforma-se o filhote em gato pelo instinto. Tudo porque, nessas criaturas, natureza e ser são idênticos. Ao contrário, o homem e a mulher desenvolvem-se por vontade própria, por múltiplas decisões que são tomadas ao longo do itinerário da vida. São decisões que exigem coragem. Se não me engano, foi Paul Tillich quem asseverou ser a coragem ontológica, isto é, essencial ao ser humano. A coragem de que falamos não é oposta ao desespero. Tanto é assim que Kierkegaard e Nietzsche, Camus e Sartre chegaram a afirmar: ?A coragem não é a ausência do desespero, e sim a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero?. Originar-se no recôndito do nosso eu é a principal característica da coragem. Caso contrário, sentir-nos-íamos vazios interiormente. Esse vazio produziria a apatia exterior, capaz de, com o tempo, transmutar-se em insuportável covardia. Nem vamos confundir coragem com temeridade, que disfarça o medo inconsciente com capacidade de conduzir o ser humano aos mais desastrosos resultados. Coragem não é violência. As pessoas verdadeiramente corajosas sempre renegaram a violência. Aleksander Solzhenitsin, afamado escritor russo, enfrentou sozinho, com intensa coragem, o poder da burocracia soviética, protestando contra o tratamento cruel e desumano dispensado aos prisioneiros dos campos de concentração da União Soviética. Sua coragem moral foi notável, mormente por não ser um liberal, mas um nacionalista russo. Não deixa de ser um fato significativo ter a coragem moral, muitas vezes, origem na identificação da sensibilidade do ser humano com o sofrimento do próximo oprimido, violentado e injustiçado. No final das contas, a coragem opõe-se à violência, a tal ponto que, enquanto existirem pessoas de respeitável coragem moral, podemos estar seguros de que o momento triunfal do ?homem robô?, não terá madrugada nem amanhecer, porque cada novo dia é destinado ao ser humano, criado para ser livre. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.

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