Opinião
Um conselho mal interpretado
| José Medeiros * Após muitos anos, encontrei o filho de um grande amigo de infância, que me contou uma estranha história, que relato em sua essência: ?Meu pai mantinha uma casa comercial bem administrada e de boa clientela. Desde cedo, comecei a trabalhar e estudar. Num acordo familiar passei a ser o futuro herdeiro da direção da empresa, embora essa não fosse minha vocação. Ele era exigente comigo; reclamava sempre, queria sempre mais. Talvez pelo fato de que todo pai deseja que o filho seja sua imagem e semelhança. Eu tinha idéias próprias, minhas indisciplinas e fraquezas, sonhos e anseios, que não eram iguais aos dele. Por causa de nossas opções contrárias, esses ressentimentos afastavam-me dele. Aos 82 anos, ele ficou gravemente doente, acometido de moléstia cerebral insidiosa, gradativa e fatal. Mesmo assim, sua perseverança era extraordinária. Diariamente, ia trabalhar numa cadeira de rodas. Um dia ? já no leito do hospital ? chamou-me. Explicou que tudo estava correndo bem e que eu continuaria o trabalho na direção da empresa, após sua morte. Colocou-me a par de detalhes que eu não conhecia e me deu, no final da conversa, um estranho conselho: nunca dê bom-dia aos seus funcionários. Julguei que se tratava de uma ordem. Daí em diante, se já não era simpático a eles, passei a ser considerado a antipatia em pessoa. Gradualmente, o empório comercial entrou em crise. Os negócios desandaram, os resultados eram magros. A insatisfação dos funcionários refletia-se na produção. Minha mãe aconselhou-me a procurar um amigo e conselheiro de meu pai; assim o fiz. Contei-lhe tudo, inclusive o conselho que havia recebido. Ele riu, riu muito e disse: você não compreendeu seu pai, ele gostava muito de enigmas; sem querer, ele estragou sua administração. Continuou: ao dizer que não desse bom-dia aos empregados, ele estava querendo dizer que você deveria ser o primeiro a chegar ao trabalho; então, os funcionários seriam obrigados a lhe dar bom-dia. Esse conselho estava bem de acordo com sua personalidade: era disciplinado e exigente consigo; por isso, julgava-se no direito de exigir dos outros. Mudei meu modo de pensar e de agir: a empresa voltou a prosperar.?. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.