Opinião
Um memorial � paix�o do S�o Francisco
| Francisco Alberto Sales * Um rio corre na direção do sonho dos homens, das carências humanas. Seu objetivo é mitigar a sede de água e esperança. Nasce miúdo e sem memória, encorpa-se com a carne de outros veios e, por esse fim, dá sua contribuição, às vezes modestas, ao grande universo das águas oceânicas. Nessa trajetória ainda se dá ao tempo de construir todo um caldo de cultura formando mesmo o caráter de uma gente, ou mesmo de várias nações. Estava predestinado, esse rio que molha os pés de Penedo, a servir como memorial perene à doação e à resistência. Um curso de paixão em todos os sentidos do termo. Agora a cidade ? Penedo ? prepara-se para abrigar o Museu do Homem do São Francisco, um justo memorial a quem nos deu tudo sem pedir nada além do desprendimento de nosso carinho, de nosso respeito. Recentemente com o BNDES assinamos convênio de patrocínio que permitirá a restauração e adaptação de dois prédios do centro histórico de Penedo. Um sonho acalentado por vários anos e construído por incontáveis mãos. Em 1995 o Ministério da Cultura aprovou o primeiro projeto para o museu. Era o começo de um novo curso, de uma nova paixão. Na construção desse caminho palmilhamos arrimados em todos os apoios que de bom grado nos chegavam ? e foram tantos que seria difícil citá-los com precisão. O museu nasce da união de esforços. Agora inicia uma nova etapa. O museu se fará como uma obra aberta. E não será apenas da cidade, mas especialmente do rio, daí seu caráter nacional. Inserido num plano museológico que privilegia todos os recantos do país, servirá como elo indissolúvel das forças culturais que se estendem de Minas a Alagoas, Bahia, Pernambuco, Sergipe ? cinco estados e uma parcela significativa do legado cultural e antropológico da gente brasileira. Iremos em busca do homem do São Francisco. Vamos conhecer suas vivências, suas histórias, suas lendas, suas esperanças. Para tanto não estaremos presos a Penedo ? seremos uma representação viva de todo o rio. Queremos produzir estudos, documentos e debates. Seremos algo muito além do guardião de passado. Nossa atividade será amplificada aos seminários, às análises econômicas e desenvolvimentistas de todas as regiões sanfranciscanas, à instigação do pensamento voltado para o rio. Temos a ambição de legar ao futuro o rio vivo, o rio testemunha permanente do passado e gestor da bonança do porvir. Mais que mineiro, baiano, pernambucano, sergipano ou alagoano, o São Francisco é brasileiro ? plenamente brasileiro ? e assim deve ser cultuado e preservado. (*) É médico, escritor e mecenas.