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| Dom Fernando Iório * Quem nunca se perguntou por que é o mundo do jeito que é? Quem jamais pensou, mais de uma vez, que poderiam as coisas ser melhores, o mundo mais fraterno e o ser humano mais feliz? Por que tantos miseráveis sem o pão de cada dia, sem o menor travesseiro onde repousar a cabeça? Por que tantos famintos? Mesmo assim: por que tanto sorriso, tamanha felicidade, onde pouco de bem-estar existe? Por que tanta riqueza sem se prelibar de felicidade dentro dela, envolvida nela? Por quê? Vezes muitas, temos tudo e parece que tudo nos falta. O ter não nos traz felicidade, se não for revestido do ser. Certa feita, um grande empresário conduziu seu filho até pobre lugarejo com o firme propósito de mostrar-lhe o quanto podem as pessoas ser pobres. O objetivo era convencer o filho da necessidade de valorizar a riqueza que possuía, o status, o prestígio social. Mais do que tudo, desejava o pai transmitir esses valores para seu herdeiro. Permaneceram os dois por mais de um dia, numa pequena casa de taipa, de um morador da fazenda vizinha. Retornando da viagem, houve por bem o pai indagar do filho o quanto tinha aprendido na viagem. ? Você viu, meu filho, a diferença entre viver na riqueza e habitar na pobreza? Que você aprendeu com tudo o que viu na pobreza? ? É, pai, respondeu o filho, eu vi que nós temos uma piscina que alcança o meio do jardim, mas eles, pobres como são, possuem um riacho que a gente não sabe onde termina. Nós temos uma varanda coberta e iluminada com várias lâmpadas, eles, no entanto, possuem as estrelas e a lua numa floresta imensa sem limite. Nós temos alguns canários na gaiola, eles possuem todas as aves que lhes oferece a natureza, indo e vindo, cantando. Além do mais, pai, observei que eles rezam, antes de qualquer refeição, enquanto nós, em casa, sentamos, falando em negócios, em dinheiro e vamos comendo e deixando o prato de lado. Tive vergonha, pai, quando fui dormir. O Tonho ajoelhou-se e agradeceu a Deus por tudo, inclusive pela nossa visita. E eu não sabia agradecer a Deus o que possuía. Outra coisa, pai, dormi na rede do Tonho, enquanto ele dormia no chão, por não haver mais rede para cada um. Na nossa casa, Maristela, nossa empregada, dorme no quarto onde depositamos o lixo, apesar de termos camas sobrando. Enquanto o filho falava, o pai ficava sem graça e envergonhado. O filho, na sábia ingenuidade e no seu brilhante desabafo, abraçou o pai e, ainda, acrescentou: ?Obrigado, meu pai, por o senhor ter me mostrado o quanto nós somos pobres!? (*) É bispo de Palmeira dos Índios.

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