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| Sérgio Costa * A mão que endivida e rouba é a mesma que desonra e mata. Bassânio queria casar com Pórcia, jovem bela e inteligente. Como não dispunha de recursos para competir com os ricos concorrentes, tomou dinheiro emprestado ao agiota judeu Shylock. A operação foi avalizada pelo amigo Antonio, crítico mordaz do ganancioso judeu, que por isso lhe odiava. Registraram em cartório que, na eventualidade de a dívida não ser paga, Antonio ofereceria seu corpo para que Shylock cortasse um quilo de carne na parte que desejasse. Quer saber o fim dessa interessante peça de teatro, escrita por Shakespeare nos idos de 1596? Leia O mercador de Veneza. Mas o meu objetivo é o discutir os meandros políticos de outra dívida. Uma dívida produzida pelo compadrio, polpudas e precoces aposentadorias, verbas secretas, dinheiro público jogado fora, enfim. Incontrolável é a gastança, cujas principais conseqüências (aumento de tributos e agiotagem oficial) desmoraliza a todos nós. Só os juros da dívida conseguem extrair do suor do nosso trabalho algo em torno de R$ 160 bilhões. Mais de 15% de tudo quanto o País produz em um ano! Esse absurdo gerou desconfiança e atraiu os holofotes do mundo. Foi então que resolveram inventar um tal de superávit primário para controlar a volúpia da insensatez. Mas os critérios adotados são desprezíveis: cortam investimentos sociais e estruturais e mantêm os desperdícios! Uma forma criativa de apertar o torniquete. E por que isso ainda ocorre no nosso País? Porque a falta de investimentos públicos no ensino da filosofia, economia e ética no trato da coisa pública (a partir da adolescência) vem castrando e alienando gerações. Mais: vem impedindo que o broto da verdadeira consciência política germine. Resultado: entorpecidos, não sabemos como cimentar as fissuras por onde escapam nossas riquezas. Pior: não conseguimos algemar as mãos criminosas dos nossos mercadores. Livres para atender aos privilégios, essas mãos ainda ousam assinar a venda de títulos da dívida. Porém, se os remunerasse com juros de primeiro mundo (2% a 5%) ao ano, ninguém os compraria. Solução: juros 15% e a promessa de respeitar contratos. O investidor fica meio desconfiado. Será que vão pagar tudo isso?! Na dúvida, pede um avalista. É aí que entra o ?Antônio Brasileiro?, que, além de pagar tributos sem receber um só serviço de boa qualidade, ainda é obrigado a oferecer a carne e o sangue para honrar os compromissos de uma dívida crescente que já alcançou a cifra de R$ 1 trilhão. (*) É contador.

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