Opinião
Bela palavra
GILBERTO DE MACEDO * Há palavra ornada de beleza, como tal dotada dos maiores valores. Expressa os puros sentimentos, a sublimação dos desejos, fala a linguagem da verdade. Comove o coração, inspira a imaginação, ilumina a inteligência, harmoniza as idéias, fecunda o pensamento, conforta a alma, enobrece o espírito. É, tudo isso, efeito da beleza. Palavra que traz alegria, sabedoria e felicidade nos momentos em que é percebida. A bela palavra, como se vê, é uma forma de arte, produto da criatividade do Homem, e que a diferencia essencialmente da palavra vulgar. Basta caracterizá-la como expressão artística, para se dizer de sua admirável singularidade no reino dos vocábulos. Palavra elegante. Bela palavra da oratória, enunciada com equilíbrio de sonoridade visando à persuasão. E palavra da recitação, capaz de dar destacado brilho ao poema exposto. Palavra expressiva da música vocal, da letra da canção emocionante pelo arranjo da forma e pelo sentido da substância. Quem não se comove ao ouvir uma sugestiva melodia? Mais bela de todas as palavras é, porém, a poesia. É a mais rica de sentido e de significado. Sua forma de expressão, denominada metáfora, é de infinita riqueza em todos os aspectos da existência, o que levou o notável Jorge Luís Borges a dizer que ?a vida é feita de poesia?. Pois a vida comum e normal de todos nós é feita de anseio, desejos, e esperanças de felicidades, cuja linguagem é a poesia. Esta é que oferece aí o modelo de vida, o ideal de existência através de suas metáforas. Daí a razão de Gabriel D?Annuzio poder dizer que ?o verso é tudo?, permitindo a clarividente conclusão de Punshkin de que ?a palavra de um poeta é a essência do seu ser?. Isso leva a se pensar razoavelmente que o Homem é um ser dotado de alma poética, só que nem todos podem expressá-la por motivos de outra índole, a saber, de ordem da imaginação Shakespeare, com toda sua genialidade, já dizia: ?Somos aquela matéria de que são feitos os sonhos?. Em todos nós, portanto, a fonte poética existe à espera de uma oportunidade, de um motivo que desperte a inspiração e se faça expressiva nas metáforas. Aliás Ovídio, desde aquela época, costumava enunciar que ?a poesia nasce simples de uma mente serena?. Sim, nasce da leveza de alma, da sublimação do espírito. Não há poesia autêntica nascida dos maus sentimentos, da inveja, da competição amargosa, do coração endurecido, do ressentimento. Pois a poesia é valor. Pois, apelando ainda para Jorge Luís Borge, ?poesia é a expressão do belo por meio de palavras?. E o belo, como derivativo de beleza, é forma de arte. E, como lembra Walter Pater ?...toda arte aspira à condição de música?. Portanto, e toda leveza de coração e espírito, purificação de alma. Assim, na poesia onde, voltando a citar Borges. ?...as coisas perfeitas... não parecem estranhas, parecem inevitáveis?. Pois é da essência da mesma. Vê-se assim o alcance estético e humano da bela palavra, que nos leva a admirá-la como manifestação da grandeza do homem. Tanto que Madame de Stael, bem dissera: ?A poesia é a linguagem de todos os cultos?. Que a bela palavra penetre no coração de todos e se faça linguagem da humanidade. Nela estão o sentido íntimo da vida. (*) É MEDICO