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Conflitos e cinismo

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| Mario Jucá * Na época de Maquiavel o ambiente humanista do renascimento deslocava o teocentrismo para o homocentrismo. Ora, idéia ideal para ter a partir daí surgir o absolutismo do poder humano. Tudo bem que a aceitação de verdades absolutas da Igreja, com suas distorções próprias aos tempos vividos, precisasse de mudança, mas não para o estado de evolução atual. O conflito de valores que se vive transborda na forma acrítica da sociedade diante das barbáries que se assiste nos noticiários. Roubos, falcatruas, desvios de bens públicos, absolvição de bandidos de colarinho branco, tudo isso parece nada, não há mais indignação. Um jeitinho todo cínico de conceber o desafio apossou-se das relações sociais. Vejam o discurso do ACM quando chama o presidente da república de Bia Falcão. Pronto, não há comparação mais feliz, pois o cinismo de nunca saber o que está acontecendo com o País que governa e deixar a bandalheira correr frouxa é demais. Em entrevista na TV, a atriz Fernanda Montenegro se disse decepcionada não com o papel que desempenhou com brilhantismo, que por sinal era a face perversa e cínica do poder manifesto e arrogante, mas estava estarrecida com o imobilismo social, com o cinismo do povo que aplaudia o vilão e ridicularizava a mocinha. Eis o comportamento daqueles que fazem de tudo para ?vencer?. Uma pergunta fica clara diante do conflito do papel e da realidade: É construtiva a ação tresloucada da telenovela em pontuar de forma descarada esse comportamento social nefasto e banal, eivado de podridão e golpes? Não bastasse a realidade que só se explica pela impunidade? Temos ainda de ficar explicando o inexplicável para as crianças e adolescentes? Temos de dizer que o casamento acabou e uma troca de casais e o sexo irresponsável, mero tesão é a forma de relação mais saudável? Um monte de filhos abrigados pelos avós num casarão-orfanato é o melhor jeito de criar filhos? Com um trejeito todo hipócrita de uma falsa moral de uma prostituta, vulgar e rebelde? O espírito crítico está ficando uma coisa chata. Os valores estão mudando de forma galopante. Pai engravida filha e obriga o enteado a fazer sexo com ele. O indivíduo casa com a tia, e assim caminha um entrevero de cinismo e podridão. Adianta perguntar onde vamos chegar? Já estamos atolados na perda de referenciais, numa sociedade neurótica pelo consumo e pelo poder, mesmo que não saiba sequer escrever seu nome, e mais, saiba que Gana é capital de Estados Unidos, porque tem tutu. E nós, que no desespero de tantos anos sem aumento salarial, com arrochos e descasos com o povo de um monarca-acadêmico, rico de vaidades, caímos na besteira de escolher um proletário, sem eira nem beira, sem Saber, mas que soube gostar e lambuzar-se com o conforto da burguesia tão criticada, mas sonhada. (*) É médico e escritor.

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